Gourmetização para quê? [artigo]

brigadeiros
Brigadeiros gourmet para todos os gostos

Outro dia estive em uma festa infantil e simplesmente nada me remeteu às comemorações que eu vivi na infância. Lembro dos meus aniversários: brigadeiros feitos em casa, torta de pão de forma com frango e geleia de ameixa, e por aí vai. Não havia o glamour dos cupcakes ou o apelo visual dos cake-pops de hoje. Muito menos a sofisticação dos mini hambúrgueres de pão australiano, queijo gouda e rúcula (sim, isso também foi servido na festa infantil).

Atualmente, ser “entendido” quando o assunto é comida ou bebida (o que é esse povo chato das cervejas especiais?) se tornou algo extremamente relevante, até uma forma de distinção social em determinados círculos. Estamos experimentando uma verdadeira avalanche de produtos e ingredientes “gourmet”! Ou pior, produtos antes populares sendo requalificados como “gourmet”. Já ouviram falar do conceito de “comfort food”, que nada mais é do que a velha e boa comida caseira, a comidinha da mamãe, o picadinho com farofa, por exemplo… repaginado e rebatizado, em destaque nos menus de grandes restaurantes?

Esse frenesi pelos alimentos “diferenciados” e “exclusivos” é interessante e, em se tratando da nossa culinária, valoriza e até resgata o consumo de produtos antes mal vistos pela classe A. Outro dia, fui em uma recepção onde uma das entradas servidas era uma delicada barquinha de beiju recheada de vatapá. Há 15 anos, servir isso num casamento seria a coisa mais cafona do mundo.

Hoje assistimos um florescimento dos produtos brasileiros com denominação de origem, ou como os mais entendidos gostam de falar, com “terroir”: é o queijo da Serra da Canastra, o café de jacu do Espírito Santo, a cachaça de Paraty… mas isso já é tema para outro post.

queijo canastra
Queijo Canastra ganhando status de celebridade

Vejo também, já há algum tempo, um movimento de legitimação das comidas de boteco e das comidas de rua, além da “descoberta” de ingredientes regionais (o que é esse hype com a tapioca no café da manhã na região Sudeste?). Por um lado, acho o máximo essa nova relação que estamos criando com a nossa culinária. Por outro, também vejo perigo na famigerada “gourmetização” que transforma algo simples em inacessível.

tapioca
Tapioca: item básico que virou ícone pop da alimentação saudável

Voltando à tal festa infantil, até o brigadeiro não passou em branco e me deparei com releituras como “chocolate belga”, “pistache” e “flor de sal”. Não julgo essas experimentações muito menos a qualidade delas, dependendo do caso. O que me parece estranho é essa forçação de barra para transformar algo simples e consagrado em produtos “frankesteins”, como pipocas ao curry, tapioca de brie com damasco e caipisaquê de lichia.

O mercado, atento que só, já percebeu que a “gourmetização” tem seu valor, ô se tem! Pagar um pouco a mais por um produto artesanal, sazonal e de difícil processamento é algo extremamente válido e justificável, mas o quanto mais caro se deve cobrar? Acho a diferenciação de preço justa, principalmente para o produtor que tem todo esse trabalho. Mas e quando não há razões para se cobrar mais caro? Quantos produtos “gourmetizados” que vemos por aí são verdadeiras pega-bobos. Volto a pensar: o quanto a mais devemos pagar por eles?

Imagens: 1, 2 e 3.

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