3 Perguntas para João Victor Azevedo (Maré Relógios)

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João Victor Azevedo, além de designer e professor, tornou-se também empreendedor ao lançar há poucos meses a Maré Relógios, um negócio que transgride a ideia de abstrata de “produtos sustentáveis” e pensa em um conceito mais amplo de consciência socioambiental, que busca entender os ciclos dos materiais utilizados e das pessoas envolvidas o processo produtivo. Os relógios, feitos à mão, têm o corpo de madeira certificada, pulseiras de couro, lona ou câmara de pneu, além de marcadores feitos com tintas orgânicas. Confira  a entrevista logo abaixo:

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1. Como começou toda essa história de unir design e materiais alternativos?
Sou graduado em Desenho Industrial e trabalhei na indústria moveleira por alguns anos, na Tamanduá Bandeira, que faz móveis de madeira para área externa, e posteriormente na Vimoso, especializada em fibras, como bambu, junco e taboa. Nesse período me interessei pelos materiais naturais, especialmente o bambu e a madeira. Isso fez com que eu quisesse me especializar no assunto, então procurei o curso de bambu do CCE PUC-Rio, onde pude aprofundar o contato com o material e conhecer o professor José Luiz Ripper, especialista na planta e lenda do design carioca.

Logo depois iniciei o mestrado no Laboratório de Investigação em Livre Desenho do Departamento de Artes e Design da PUC, sob coordenação do Ripper. No mestrado, estudei as interações entre modelos mecânicos (maquetes) e os modelos eletrônicos (maquetes “virtuais”) na pesquisa em design. Nessa pesquisa me deparei com as bolhas sabão e as formas apresentadas pelas mesmas. Assim, em 2013 iniciei o doutorado (ainda em andamento) no mesmo laboratório, pesquisando o princípio de formação e a geometria dos filmes de sabão, de modo a traduzi-los em estruturas de bambu e terra. Esses estudos ja foram apresentados em diversos eventos como a Rio+20, e publicados em países como China, Portugal, Bélgica etc. Sou também professor de Projeto 2 e Projeto 6 na Graduação em Design da PUC-Rio e professor de Criatividade nas graduações em Design e Engenharia na Universidade Veiga de Almeida.

2. Como surgiu a ideia de fazer relógios utilizando materiais reaproveitados?
Em 2014, um amigo me chamou para desenvolver com ele e um outro sócio um relógio de madeira. Foi na época do primeiro “boom” de objetos com materiais alternativos. Desenvolvemos, à época, o relógio Camará, todo feito em madeira, com o intuito de ser uma joia, mas sem o viés “sustentável” – particularmente uma opção minha, pois não acredito na sustentabilidade como um modelo único ou como simples discurso para vender mais (o famoso “greenwashing”). No entanto, as pessoas enxergavam o produto como “sustentável” e só se referiam a ele como tal.

No início de 2015, a sociedade foi rompida, mas eu já estava apaixonado demais para deixar de lado o design de relógios. Assim, optei por continuar, mas modificando tudo aquilo que eu não curtia na Camará. A primeira coisa que cortei foi a coisa de “joia”. Quanto de sangue e lágrimas já foram derramados por conta de pedras e metais preciosos? Quero estar fora disso! Ao contrário, quero trabalhar a preciosidade particular que todo tipo de material tem. Preciosidade que não é percebida pelas pessoas e é descartada: já viu a quantidade de madeira que é jogada fora todos os dias?

Uma vez, em conversa com o Ripper, e seus 80 anos vivência, ele me falou: “rapaz, se o homem soubesse o valor da madeira, ele não derrubaria uma árvore sequer!”. A sustentabilidade total é uma utopia, mas serve para que sigamos melhorando a relação do homem com seu ambiente e sociedade. Refleti sobre isso tudo e, assim, optei por levar a frente um conceito de consciência socioambiental, buscando entender os ciclos dos materiais utilizados e das pessoas envolvidas na produção. A primeira parte está bem encaminha, a segunda ainda estou trabalhando para obter melhores resultados.

3. Quais são as suas inspirações?
Minha inspiração é a prática, o moldar, o agir. Nada substitui a nossa mão no material. Esse contato nos traz para a realidade, sai do campo virtual, conhecemos e percebemos os limites do mundo concreto, e agindo estendemos esses limites. Pra mim, a prática material é a única que pode nos aproximar novamente do meio ambiente, modificando-o com consciência. No dia em que soubermos manipular apenas a energia, teremos um mundo completamente diferente. No entanto, infelizmente, ainda somos matéria e acredito que trabalhando com ela, e não contra ela, aprenderemos esse novo caminho.

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