3 Perguntas para Juliana Dias

Juliana Dias_Jornalismo Gastronômico_por Mariana Moraes

Conheci a Juliana Dias, há mais o menos um ano, quando fui seu aluno no curso de Jornalismo Gastronômico da FACHA, no Rio. De lá pra cá, passamos a trocar muitas figurinhas sobre temas afins e ela se tornou, para mim, uma espécie de guru conceitual. Além de ministrar o curso (que agora é também pós-graduação, com início em setembro), Juliana é sócia da Malagueta Comunicação, mestre em Educação em Saúde e Ciências (Nutes/UFRJ) e pesquisadora na área de comunicação, cultura e alimentação. Confira a nossa prosa!

1. Em que momento da sua trajetória você percebeu que essa história de comunicação e gastronomia dava caldo?
Quando escolhi fazer jornalismo, já tinha o interesse em escrever sobre comida. Não sabia como seria a junção dos dois assuntos, pois os espaços dedicados nos jornais abordavam apenas alguns aspectos do alimento, como culinária, saúde, bem-estar e ciência. Eu tinha a intuição de que falar sobre comida deveria ser mais abrangente. Atribuo essa percepção a minha infância, onde cresci com meu pai, o seu Pacheco, paraibano chegou no Rio com 18 anos, trazendo na mala “bastante saudade”. Por mais de 30 anos foi dono de um armazém com produtos do Nordeste, na Ilha do Governador; aos domingos preparava almoços com pratos de sua Terra, como sarapatel, buchada, dobradinha… além das idas à Feira de São Cristóvão e rodas de repente na sala de casa, regadas à comidas e bebidas típicas.

Enquanto ele matava as saudades do sertão com a comida, eu desde cedo gostei de cozinhar, preparar bolos, inicialmente, sempre com apoio da minha mãe. O interesse pelos sentidos do cozinhar, comer junto e compartilhar foi tomando meu pensamento com questões que me animavam. Comida tem história, afeto, cuidado, e o universo simbólico do comer me arrebatou. O tema de minha monografia foi a Feira de São Cristóvão e daí em diante persegui uma oportunidade para juntar as duas paixões. Foi no evento chamado Degusta Rio, em 2003, que conheci um mundo fascinante do qual não tinha tido acesso ainda. Em uma das barracas estavam Margarida Nogueira e Teresa Corção falando sobre mandioca, veja só, e da importância de valorizar as identidades brasileiras. As duas me apresentaram o movimento Slow Food, do qual faço parte até hoje. Outra pessoa que conheci nesse evento foi a Luiza Aquim, mãe da Samantha Aquim. Com doçura e paciência, ficou um bom tempo conversando comigo sobre comidas, restaurantes e todo o universo da gastronomia. Me encantei com as três. Quanta sinergia. A maneira como elas falavam sobre o alimento, era como eu imaginava que deveria ser, mas não tinha referências. Eu colei na Margarida e na Teresa. Aprendi muito e aprendo até hoje. Uma iniciação em grande estilo, com pessoas apaixonadas, sérias e comprometidas. Foi um presente.

Entre os autores que me marcaram nessa trajetória estão Rubem Alves, Brillat-Savarin, Michael Pollan e Eça de Queiróz. Em 2006, conheci Carolina Amorim, com que consegui colocar em prática o que vinha aprendendo e lendo. Montamos a Malagueta Comunicação e em 10 anos realizamos projetos lindos, com o propósito de falar sobre comida de forma complexa, carregada de significados culturais. Somos empreendedoras da internet e foi nesse espaço que lançamos o Informativo Malagueta, um boletim semanal que chegou a ter 22 mil assinantes. Era um prazer preparar esse conteúdo, falando da comida em diversos assuntos e editorias, buscando acompanhar os acontecimentos por essa lente. Hoje, não temos mais o informativo porque estamos nos dedicando a projetos pessoais e trabalhamos em conjunto com projetos da Malagueta, como a campanha Comida é Patrimônio, do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN). De 2003 até hoje, cada vez mais percebo a importância de relacionar comunicação e gastronomia, como uma estratégia de emancipação da população, que está cercada com discursos com interesses tão distintos sobre alimentação que perde a capacidade de contextualizar e englobar os saberes e práticas da atividade de alimentar-se. Há um pensamento reducionista que considera o conhecimento da comida apenas pelas partes: prevalece o nutriente ao invés do alimento; ou a mercadoria ao invés do direito. As sucessivas crises atuais demandam por novas maneiras de conhecer, comunicar e aprender, sendo o campo da alimentação um desafio para todos, por ser central tanto para a sobrevivência como para organizar simbolicamente a sociedade.

Juliana Dias_Curso Jornalismo Gastronômico_por Mariana Moraes

2. E como surgiu a ideia de um curso orientado ao profissional quem tem interesse por uma área tão específica do jornalismo?
O curso é fruto dessa vivência profissional, do engajamento e da experiência acadêmica. Senti a necessidade de fomentar o enfoque comunicacional com outros interlocutores que trabalham com gastronomia. Acredito que o campo da comunicação social precisa sentar à mesa para discutir alimentação, não pela sua instrumentalidade, mas pelo fato de a comunicação ser uma dimensão existencial e organizacional da sociedade. O curso começou em 2014 e, ao longo desses dois anos, tem sido um excelente campo de conhecimento, trocas e reflexões sobre como devemos aproximar o campo da comunicação com a gastronomia. Esse ano, vamos concretizar mais uma etapa. Em setembro a FACHA vai lançar a pós em Jornalismo Gastronômico, com um time de profissionais e pesquisadores que tem produzido conhecimento crítico sobre as relações entre alimentação, comunicação e cultura. A pós é inédita no Rio e nosso objetivo é apresentar uma abordagem complexa e dialógica entre comunicação e alimentação.

3. Quais são os principais desafios enfrentados pelo jornalista que se propõe a escrever sobre comida?
Entre os principais desafios, a meu ver, está a formação, pois é preciso estudar conteúdos de diferentes disciplinas para produzir novos modelos de comunicação. Quem está entrando agora no mercado tem chances de empreender, realizar projetos que ainda não foram feitos, mas demanda um pensamento crítico, para inovar em processos criativos nas áreas como publicidade, marketing, mercado editorial, produção de TV. É importante ter em conta que deve-se estudar muito mesmo, buscar dialogar saberes, disciplinas e práticas para construir um modelo de jornalismo gastronômico que siga o caminho da pluralidade, numa comunicação horizontal e em rede. Percebo que há um campo a ser explorado pela área de comunicação com os temas da Segurança Alimentar e da Agroecologia. Muitas iniciativas pioneiras estão emergindo e é necessário fortalecê-las, sistematizá-las e consolidá-las. Vejo muitas oportunidades, mas é preciso colocar a mão no arado, fazer articulações e se juntar às redes e movimentos sociais para provocar mudanças. Na minha visão, produzir conteúdo e conhecimento sobre comunicação e gastronomia é uma maneira de gerar novas perspectivas para enfrentar a crise ambiental, a crise da mídia e tantas outras que se somam. É um campo fértil para empreender, engajar, compreender melhor o mundo e transformar realidades.

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+ Imagens: divulgação.

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