3 Perguntas para Luiz Eduardo Rocha (Zerezes)

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Luiz Eduardo Rocha, Henrique Meyrelles e Hugo Galindo, sócios da Zerezes
Com pouco mais de cinco anos em atividade, a Zerezes tornou-se uma marcas de óculos escuros altamente cobiçada, tanto por quem curte design quanto por quem busca produtos que vão além do esvaziado conceito de “sustentáveis”. Engana-se quem pensa que os óculos da Zerezes têm qualidade inferior ou são descartáveis. Já manuseei estas belezas na lojinha do MAR e eles são realmente bonitos, muito bem acabados e incrivelmente leves.
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A história da marca começou em 2011, na cidade do Rio de Janeiro, fruto de um projeto de estudantes de design que, na época, tentaram comprar óculos escuros de madeira, feitos nos Estados Unidos, mas não conseguiram. Sabe qual foi a solução? Eles fabricaram os modelos por conta própria, mas com um detalhe interessante: utilizaram, como matéria-prima, restos de madeiras encontrados em canteiros de obras espalhados pela cidade!
A brincadeira deu tão certo que, em menos de um ano, o projeto virou realidade e, hoje, a Zerezes fabrica não somente óculos escuros estilosos, mas fomenta também toda uma rede de fornecedores locais em um inovador sistema descentralizado de produção “complexo, mas ao mesmo tempo muito rico e enxuto”, explica Luiz Eduardo Rocha, um dos sócios do empreendimento, em entrevista por e-mail que você confere logo abaixo:
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1. Como é o processo produtivo para a fabricação dos óculos, desde a seleção dos materiais até a venda?
O fato de não existir uma indústria que oferecesse um serviço de produção de óculos de madeiras reaproveitadas, fez com que tivéssemos que desenhar, desenvolver e capacitar todo um arranjo produtivo próprio. Isso – aliado à nossa vontade de criar produtos mais sinuosos, resistentes e bem feitos, sem necessariamente ter que virar fábrica – fez com que criássemos um sistema descentralizado e complexo, mas ao mesmo tempo muito rico e enxuto.
Atualmente, trabalhamos com alguns tipos de materiais, mas o carro-chefe que chamamos de Madeiras Redescobertas, se inicia com a coleta da madeira, que pode vir desde o seu encontro casual, em caçambas de entulho, até pessoas se desfazendo de algum móvel que entram em contato com a gente. Nessa primeira etapa, já existe um filtro por espécies, dimensões e estados das madeiras. Feita a primeira triagem, levamos Perobas Rosas, Perobas do Campo, Pinhos de Riga e Jacarandás para o Valmir, que as processa, transformando madeira maciça em lâminas de 0,6mm. Essas lâminas vêm para o nosso sobrado, onde definimos as “misturas” e as prensamos em curvas. Já no formato certo, essas chapas prensadas passam por um corte à laser (onde os modelos são definidos) e seguem para o Neinha – responsável por transformar matéria-prima em óculos. Lá acontecem as “operações óticas” – são feitos rebaixos, inserção das charneiras (dobradiças), abertura do vizel (canaleta onde entram as lentes), corte dos ângulos, encaixe das hastes e uma primeira boleada para deixar os óculos mais arredondados. Feito isso, distribuímos as peças para uma rede de lixadores, que, com lixas 120, 220 e 400, deixam os óculos super bem acabados e prontos para receber uma fina camada de resina de mamona – atóxica e biodegradável – para selar e impermeabilizar a madeira. Assim que secam, encaminhamos, simultaneamente, as hastes para gravação e as frentes para colocação das lentes, e quando voltam, são montados e passam por um processo de qualidade antes que entrem em estoque e sejam distribuídos pelos nossos pontos de venda.
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2. Existe uma miopia acerca de produtos sustentáveis: muitos acham que é marketing verde, outros apenas mais um nicho e, ainda, há aqueles que criticam o preço, em virtude do baixo custo das matérias-primas. Como vocês lidam com esses questionamentos?
Acreditamos que as marcas têm responsabilidade sobre aquilo que colocam no mundo e os clientes têm o poder de escolher o que querem consumir. Ser questionado faz parte de um processo de transição que estamos vivendo, ainda mais num estágio, assim, tão incipiente. E acreditamos que isso, de fato, faz com que as empresas repensem seus atos e evoluam. Hoje tentamos estabelecer um canal super aberto com os nossos clientes. Quando alguém questiona o nosso preço, explicamos que existe um arranjo produtivo local por trás da nossa produção que está sendo remunerado de forma justa, sem que espremamos suas margens em prol de lucros próprios. Que apesar do custo de aquisição de uma madeira às vezes ser menor, existe todo um beneficiamento do material que leva tempo e é super oneroso. E que escolhemos trabalhar com pessoas, com resinas menos nocivas, com reaproveitamento e garimpo de materiais, numa escala menor e desacelerada, com um suporte para consertos e reparos sem custos, e assim por diante. O mais legal é que, quando se dá acesso à informação e nos abrimos para o diálogo, as pessoas entendem e passam a valorizar cada vez mais.
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3. Por que trabalhar com design e sustentabilidade?
A Zerezes nasceu na faculdade de Design, formada por 4 designers de produto. Desde sempre, aprendemos e interiorizamos que ser “sustentável” não é (ou pelo menos não deveria ser) um atributo extra de um projeto. Ser “sustentável” é uma premissa. Costumamos dizer que a Zerezes é só a materialização de uma série de valores, práticas e um conjunto estético que compartilhamos e acreditamos. Poderia ser qualquer outra coisa. Enfim, não sei responder o porquê de se trabalhar com isso, mas me parece muito natural que esse tenha sido o nosso caminho 🙂
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.  .  .
+ Imagens: divulgação
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