Frango barato, porém indigesto

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Ao passar por entre os freezers e geladeiras do supermercado, você já se perguntou como o preço do frango é tão barato, independente das promoções? Desde os anos 90, a ave começou a ser uma alternativa saudável para as famílias brasileiras e, de prato de fim de semana, passou a figurar em nossas mesas como uma opção super viável. Em pouco mais uma década, o consumo aumentou 26%, enquanto o de carne bovina caiu 10%.

Regiões rurais, como o oeste catarinense, tornaram-se verdadeiros pólos produtores, elevando o Brasil ao status de principal exportador mundial – e os frigoríficos são, hoje, os grandes responsáveis por saciar a nossa fome aviária. Estas empresas contam com uma rede de milhares de pequenos produtores que utilizam métodos intensivos em suas granjas, ambos sem nenhuma responsabilidade financeira pelos impactos causados por tal atividade. Assim, o preço, aparentemente barato não leva em conta as condições da criação, a capacidade de estocagem e a saúde dos animais.

De fato, a produção de carne bovina tem um custo ambiental muito maior, mas o frango industrial também traz consequências que não podemos negar. São milhares de granjas produzindo milhões de aves – em galpões com capacidade para 10, 15 mil animais apinhados, vivendo a base de água, ração e antibióticos, muitos antibióticos! Isso tudo inserido em um ciclo que alimenta a indústria do agrotóxico, a monocultura, os transgênicos…

Não são poucos os agricultores associados que recusam-se a comer o frango que eles administram para os frigoríficos e, em um local escondido da propriedade (sim, os frigoríficos não permitem…), criam as suas próprias caipiras soltinhas para consumo próprio – pense numa galinhada com polenta boa!

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A galinha de verdade, infelizmente, é vista como uma opção de nicho de mercado, porque custa o triplo se comparada com a “sintética”. Os abatedouros entraram em extinção e hoje, nas grandes cidades, é praticamente impossível encontrar as caipiras com facilidade. Estes animais, diferente dos seus primos industriais, são criados livres (ou semi-confinados), sem antibióticos, hormônios ou rações turbinadas. Uma granja caipira possui uma capacidade de estocagem infinitamente menor, o que garante aves menos estressadas e mais saudáveis.

Eu aposto que, se os consumidores soubessem como são as granjas industriais, eles repensariam o consumo de frango do jeito que comemos hoje.

Por outro lado, apesar das empresas que têm criações sustentáveis ou mesmo pequenos produtores entregarem muitos benefícios ao meio ambiente, sobretudo, à nossa saúde, não há nenhum ganho em termos de vantagens competitivas para eles. E quem paga o preço somos nós, consumidores, por meio de impostos, sob a forma de subsídios agrícolas obscuros e, claro, sem muitas alternativas aos frangos molengas, com gosto de nada!

Se o verdadeiro custo fosse levado em conta, não duvido que os papéis se inverteriam e o preço do frango industrial seria mais caro do que o orgânico.

Mas de quem é a culpa disso tudo? Seria fácil apontar o dedo para as cooperativas ou os produtores, mas eles estão presos a um sistema econômico que recompensa aqueles que produzem mais alimentos por preços mais baixos e, como resultado, só aqueles que podem se dar ao luxo de pagar por um “produto de nicho” desfrutam de sabores verdadeiros.

Este é um sistema realmente insustentável e que, mais cedo ou mais tarde, alguém terá que pagar a conta. E isso não acontece só com o frango, mas também com cafés, suínos, laticínios, cereais, hortaliças, carnes… Mas temos que começar a nos perguntar por que devemos apoiar um sistema alimentar tão nocivo.

Felizmente, nós temos o poder de mudar este cenário, seja no âmbito político, militando em prol de preços justos e programas de segurança alimentar, ou mesmo no seio do nosso lar, repensando as nossas escolhas alimentares. Se os preços dos alimentos orgânicos ou artesanais nos supermercados ainda assustam, outras alternativas começam a despontar como opções mais acessíveis. Considere as feiras livres, as redes de compras pela internet, o mercadinho do seu bairro.

É possível driblar os preços salgados e a crise!

Ao fazer estas escolhas, você poderá ajudar a criar um sistema alimentar mais sustentável e saudável não só para nós, consumidores, mas para toda uma rede de pessoas que estão juntas nessa jornada em busca de sabores bons, limpos e justos.

.  .  .

Artigo originalmente publicado na revista eletrônica da Junta Local em 08/06/2016.

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