3 pilares do próximo sistema alimentar

Há alguns dias, tive acesso a um interessante artigo, compartilhado pelo amigo Eddie Boorhem, sobre o futuro do nosso sistema alimentar. Escrito por Micki Seibel, do Sustainable Food Systems, o texto sugere que estamos no limiar de uma nova revolução alimentar, baseada em biodiversidade, novas culturas alimentares e tecnologia. Tomei a liberdade de traduzi-lo para compartilhar aqui no Caipirismo. Confira!

+ Leia o artigo original aqui

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Ao longo da história, nós transformamos o nosso sistema alimentar em várias ocasiões notáveis. A capacidade de domesticar plantas e animais, por exemplo, provocou a primeira transformação: o aumento da agricultura. Já o sistema alimentar que conhecemos hoje é resultado da “revolução verde”, iniciada em meados do século XX.

A “revolução verde” resolveu o problema da quantidade: como podemos aumentar a quantidade de calorias para alimentar uma população em franco crescimento? Os principais pilares desta revolução foram: 1) inovações na química que geraram fertilizantes artificiais, herbicidas e pesticidas; 2) desenvolvimento de culturas de grãos de alto rendimento; e 3) infra-estrutura de água controlada (por exemplo, irrigação). Como resultado, nós aumentamos a quantidade de alimentos que produzimos conforme o aumento massivo das colheitas.

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Infelizmente, como acontece na maioria das situações, há consequências não intencionais neste processo: fizemos um sistema alimentar que produz o alimento errado, com grandes danos ao meio ambiente.

É por isso que estamos no início da próxima transformação em nosso sistema alimentar. Desta vez, preservando a nossa capacidade de produzir em quantidade e melhorando questão da sustentabilidade. Os três pilares do nosso próximo sistema alimentar são: 1) biodiversidade, 2) novas culturas alimentares e 3) digitalização.

Biodiversidade: imitando a natureza; sem controle
Com o sistema de alimentos industriais de hoje, milhões e milhões de hectares de terra são dedicados ao cultivo de uma única cultura e um grande esforço e muitos produtos químicos são utilizados para afastar todo o resto de vida daquele ambiente. Com o passar do tempo, as monoculturas degradam o solo e deixam as ervas daninhas e pragas mais resistentes aos agrotóxicos.

Por outro lado, ecossistemas prósperos e saudáveis na natureza contêm verdadeiras massas de biodiversidade. Desde a floresta mais profunda, passando pelo fundo do oceano até o topo da montanha mais alta, os ecossistemas naturais abrigam centenas ou milhares de espécies de plantas, animais e micróbios, todos interligados.

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Nosso próximo sistema alimentar vai imitar a natureza através do cultivo de alimentos em um ecossistema que incorpora plantas, animais, fungos, micróbios e novos participantes a serem descobertos. Hoje, o solo que  abriga as uvas da sua taça de pinot noir só produzem frutos para o vinho. Neste novo sistema alimentar, esta mesma terra produzirá também os grãos para o pão, o leite para o queijo, a lã para o suéter e o cordeiro para a janta. O rancho que produz carne bovina também terá galinhas e suínos e cultivará nabos, couve e beterraba, porque os porcos comem isso também. Nada será desperdiçado.

Algumas variedades atuais também serão cultivadas em ambientes fechados. Esta forma de agricultura é mais parecida com uma fábrica do que com uma fazenda: altamente automatizada e orientada a dados. Por que 90% das folhas verdes produzidas nos EUA devem ser cultivadas somente na Califórnia quando 75% da população norte-americana vive ao leste das Montanhas Rochosas? Produtos altamente perecíveis, como verduras, morangos, brócolis… viajam, em média, mais de 3.200 km desde a fazenda até o garfo.

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Realizar a colheita em instalações hidropônicas perto de grandes centros populacionais significa que você pode propiciar mais nutrientes em produtos mais frescos, reduzir em 90% o consumo de água, ter colheitas diárias durante todo o ano e gerar menos resíduos alimentares. Isto se aplica ao peixe fresco e frutos do mar, porque há uma simbiose com os resíduos do processamento de frutos do mar e os nutrientes necessários para a produção dos mesmos. É uma outra forma de ecossistema diversificado.

Novas culturas de alimentos em novas embalagens
Os principais cereais que alimentam o mundo (e o gado) – milho, trigo, arroz, soja, etc – são plantas sazonais. Semeaduras, florescimento, colheita… sazonais. Como os seres humanos neolíticos domesticaram as plantas há 10.000 anos, era mais fácil e mais rápido repetir o processo por reprodução seletiva sazonal. Alimentos perenes, por outro lado, não tiveram esse tipo de avanço, porque são duradouros. Nós optamos por alimentos sazonais porque são mais rápidos, mesmo considerando que as plantas perenes podem ser melhores: sistemas profundamente enraizados que reduzem a erosão do solo e sequestram o carbono da atmosfera. Os avanços na genética e, em particular, a capacidade de editar sequências genômicas em software – o equivalente digital de reprodução seletiva – permitem a replicação de variedades perenes mais rapidamente. Isso representa campos que retêm mais água, mais solo e mais adubo, facilitando o cultivo de grãos em terras marginais. Gramíneas perenes também formam a base de um ecossistema diversificado para os animais pastarem, além de formar todo um microbioma próspero.

Novos alimentos serão “descobertos” nos resíduos produzidos pelo nosso sistema atual. Como o desperdício é um tema cada vez mais importante para a segurança alimentar, estes resíduos podem se transformar em novos subprodutos. Você já se perguntou o que acontece com toneladas de fibra de soja depois que se extrai o líquido que vira leite de soja ou tofu? E o soro de leite que é separado no processo de fabricação do queijo? O que acontece com as cascas dos bilhões de camarões consumidos todos os anos nos Estados Unidos? Tudo isso é pode ser aproveitado não só na alimentação de animais, mas também na de seres humanos.

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Para atender as necessidades nutricionais de uma população em crescimento, vamos explorar a última fronteira das proteínas: os insetos. Eles se reproduzem rapidamente e exigem uma espaço de terra muito pequeno para serem criados. Neste novo sistema alimentar, veremos os insetos entrarem no nosso abastecimento alimentar, primeiro na nutrição animal e, ao longo do tempo, como produtos alimentares humanos.

As embalagens serão feitas a partir de novas substâncias, oriundas de outros alimentos. Isto permite que estes produtos sejam biodegradáveis. Elas não se acumularão e entoxicarão os oceanos como acontece hoje com o plástico. Do “couro” derivado de cogumelos ao “plástico” sintetizado a partir de conchas de camarão, estas novas embalagens vão das cinzas às cinzas, do pó ao pó, como matéria orgânica de volta em nossos solos e oceanos.

Sendo biológicas, estas embalagens poderão mudar de cor para indicar que o produto passou da validade. O macarrão fusilli poderá transformar-se de uma folha lisa ao formato espiral característico somente quando estiver perfeitamente al dente. Dados de espectroscopia genômica e química serão tão baratos e difundidos que sua comida lhe dirá quais nutrientes estão contidos nele. Você não precisará mais das informações dos rótulos.

Digitalização
Atualmente, o alimento é a cadeia de suprimento menos digitalizada de qualquer setor. A recente proliferação de aparelhos inteligentes como telefones celulares, dispositivos portáteis, tablets e sensores baratos e sofisticados, além de avanços em robótica, possibilitam a coleta e análise de dados independentes, à medida que os alimentos são cultivados no campo e viajam pelo sistema alimentar até o nosso garfo. As decisões sobre a fazenda não serão mais tomadas por meio de observações humanas e técnicas de tentativa e erro. As decisões sobre como cultivar alimentos e o quanto colher serão baseadas na medição e análise de ecossistemas de biodiversidade com coleta de dados digitais, big data e análises sofisticadas.

Os dados digitais armazenados “na nuvem” e facilmente acessíveis e compartilháveis ao longo da cadeia de abastecimento, propiciam um fornecimento de alimentos mais transparente e com muito menos desperdício. Não será mais necessário produzir em grande escala para depois empurrar tudo para o início da cadeia de abastecimento – desperdiçando metade dele ao longo do caminho. Em vez disso, faremos previsões sofisticadas para produzir exatamente o que é necessário, quando for necessário. Vamos desperdiçar menos.

Toda transformação em nosso sistema alimentar – desde o surgimento da agricultura até a industrialização – resolveu um problema de um sistema anterior. A próxima transformação está em nossas mãos: ecossistemas diversificados, novas culturas alimentares e o poder da computação moderna formam estes pilares. São muitos os motivos para estarmos otimistas. Diariamente, vejo empresas (grandes e pequenas), organizações governamentais e organizações sem fins lucrativos que estão inovando e colaborando para criar este novo sistema. Os três pilares que apresentei são tecnologias e inovações que se fundamentam no presente. Eles existem agora! Precisamos apenas usá-los, implantá-los e cultivá-los. É um momento emocionante para trabalhar no sistema alimentar.

Eu me pergunto, porém, quais serão as conseqüências não intencionais?

 

 

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