O Brasil é mais rural do que se imagina

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Ana Maria Dias

Eu poderia começar este post com um subtítulo do tipo “eu já sabia!”… fato da vida é que, segundo uma avaliação do IBGE, o Brasil é mais rural do que se supõe atualmente.

O instituto lançou nesta segunda-feira, 31 de julho, uma nova proposta para uniformizar a classificação de áreas urbanas e rurais, retratada na publicação Classificação e caracterização dos espaços rurais e urbanos do Brasil – uma primeira aproximação.

De acordo com a nova proposta, 76% da população brasileira residiria em “zonas urbanas” em 2010, enquanto, segundo a classificação adotada atualmente, 84,4% dos habitantes do mesmo ano moravam nas cidades. O que, para qualquer um que vive ou conhece um pouco dos interiores deste gigante país, não faz o menor sentido…

O objetivo do estudo é promover uma discussão sobre os critérios de distinção entre rural e urbano até 2020, para que seja possível aprimorar a divulgação do próximo Censo Demográfico.

O IBGE reconhece que a questão toca em pontos sensíveis, o que deve gerar um debate na sociedade. Atualmente, cada município define através de legislação municipal própria o que é considerado zona urbana e zona rural.

A classificação determina a forma de incidência de tributos. Na área urbana é cobrado o IPTU, recolhido para os cofres municipais, enquanto que na área rural a arrecadação é federal, explicou o órgão. Aí a gente já começa a entender como chegamos a estes 84% de população urbana no país…

A proposta do IBGE adota três critérios básicos para a elaboração da nova classificação: a densidade demográfica, a localização em relação aos principais centros urbanos e o tamanho da população. Após análise dos critérios, os municípios foram caracterizados como “urbanos”, “rurais” ou “intermediários”.

A metodologia aplicada segue as mesmas orientações de organizações internacionais como a União Europeia, e a de países como os EUA, o que permitiria a comparabilidade dos resultados brasileiros.

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Com informações do site da Isto É (Estadão Conteúdo).

 

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Revolta da Cachaça Fluminense

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Crédito da imagem

Para a edição de julho da revista eletrônica da Junta Local, escrevi uma matéria bem bacana que aqui divido com vocês. O texto fala sobre a polêmica lei estadual no Rio de Janeiro que obriga estabelecimentos que vendem destilados a comercializar, pelo menos, quatro rótulos produzidos no estado.

Um bar, por exemplo, que não cumprir a medida pode perder o direito a benefícios que dependam da autorização do Poder Executivo, como anistia de dívidas, empréstimos e renúncia fiscal…

A medida deixou empresários, comerciantes e até produtores revoltados! Confira o texto completo aqui e saiba mais sobre a “lei da cachaça”.

A Terra Vermelha e as tensões no campo

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Uso indiscriminado de agrotóxicos, plantações de eucaliptos em áreas de mata nativa, relações de trabalho no meio rural, saúde pública, acesso a educação… este é o cenário de A Terra Vermelha (La Tierra Roja), que conta a história da delicada relação de Pierre, funcionário de uma madeireira, e Ana, professora e ativista em prol da saúde da população de povoado no interior da Argentina.

Assisti a este belo filme quase sem querer neste fim de semana, sem ler sinopse ou ter ouvido falar dele. Além da grata grata surpresa em si, a obra trouxe para a reflexão vários elementos ligados a questões do campo,  indispensáveis para quem trabalha, estuda ou é entusiasta sobre a temática dos conflitos no meio rural.

O longa, lançado em 2017 no Brasil, tem a direção de Diego Martinez Vignatti e atuação de Geert Van Rampelberg, como Pierre, e Eugenia Ramírez Miori, como Ana.

Emulação alimentar – como voltar ao real?

Há alguma semanas, eu conheci o Lucas Della Iglezia, um dos sócios da Cachaça Curtida, num desses encontros facebookianos, sendo a comida de verdade e a filosofia slow food esse ponto de atração que nos uniu. A Curtida resgata uma antiga tradição de criar infusões de cachaça com frutas e ervas, sem corantes, flavorizantes ou sabores artificiais.

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Papo vai, papo vem, o Lucas, que é também um entusiasta da ecogastronomia e fã de sabores verdadeiros, me presenteou como este belíssimo texto que divido com vocês aqui no blog. Confiram:

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Emulação alimentar – como voltar ao real?

Não quero vir aqui para ditar regras ou para fazer ninguém parar de comer o que come ou levar uma vida 100% regrada e bitolada no que deve ou não deve comer. Minha ideia, com as palavras que trago abaixo, é somente indicar alguns fatos que passam despercebidos pelas pessoas no dia-a-dia, mostrando que existem formas de fazer melhor – e sem muita complicação, claro.

Vamos falar sobre produtos industrializados, uma realidade que não vem de hoje. Desde o aumento populacional nas grandes cidades, as indústrias vem achando formas de conservar melhor os alimentos – agora com origem mais distante dos grandes centros urbanos – e mantê-los “frescos” por mais tempo.

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Crédito da imagem

Mas foi por volta dos anos 50 que a onda de enlatados, congelados e fast foods vieram à tona. Esse quadro é reflexo de uma sociedade que vive cada vez mais sem tempo para preparar seu próprio alimento em casa, fazendo com que a cozinha seja um cômodo esquecido em nossos lares – muito diferente do que era antigamente, acreditem!

Curiosamente, de um tempo pra cá, temos visto uma ascensão de movimentos a favor do chamado slow food, dos alimentos orgânicos e do retorno das pessoas para suas cozinhas. Mas será que isso está presente em todos os alimentos? Ou melhor: será que está presente nas bebidas também?

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Digo isso pois é muito comum vermos uma família unida na preparação de um belíssimo pão caseiro, comendo o mesmo com um queijo orgânico… mas bebendo uma caixa de suco artificial, águas saborizadas industriais e os famigerados refrigerantes.

Mesmo que não pareça, existem perigos escondidos em muitas dessas soluções ditas “saudáveis” pela indústria. Vamos ver alguns deles?

As bebidas industriais “naturais”
Vamos começar assumindo que grande parte dos sucos industriais (e estou falando sobre os de caixinha, já que suco em pó é açúcar com corante e sabor artificial) contêm quase ou o mesmo tanto de açúcar que refrigerantes, fazendo com que não sejam uma opção tão mais saudável assim.

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No entanto, uma das grandes promessas para uma vida mais saudável, longe da quantidade de açúcares dos refrigerantes e sucos industrializados, se encontra nas águas saborizadas. Geralmente gaseificadas, com baixo ou nenhum teor de gordura e calorias, são geralmente as primeiras opções na mesa de quem busca uma vida mais saudável.

O próprio benzoato de sódio, aliás, vem sendo alvo de estudos. Entre eles está a pesquisa publicada pela agência de alimentos do Reino Unido no ano de 2007, que indica a relação entre o benzoato com o aumento de casos de hiperatividade em crianças.

Cores e sabores fantasmas
Não é difícil ver também a quantidade de bebidas que são “coloridas artificialmente” e que possuem “sabor artificial de…”. Muitos desses corantes são sim de origem orgânica, mas ainda existem produtos amplamente utilizados na indústria que provém de compostos químicos inorgânicos.

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Um exemplo é o corante conhecido como o azul brilhante FCF. Esse corante sintético é obtido através de hidrocarbonetos derivados do petróleo e amplamente utilizado em produtos que requer uma coloração azul, como o Curaçau Blue, por exemplo.

O vermelho 40 também não é um corante de origem natural, mas sim de um composto petroquímico, que está sendo associado ao aumento de hiperatividade em crianças e já foi banido em países como Alemanha, Áustria e França.

Largamente utilizados, os aromatizantes e flavorizantes estão presentes em grande maioria dos produtos industriais, tanto por serem raras as reações adversas como também pelo baixo custo em sua utilização, já que são empregados em pequenas concentrações.

Geralmente eles podem ser naturais, provenientes de extratos de plantas e frutas, ou artificiais, vindos de bálsamos, álcoois aromáticos e afins.

O único problema é: você não está consumindo nada mais o que um fantasma do que era aquele produto. Quando você come uma geleia “sabor morango” não é a mesma coisa que comer uma geleia que contenha a fruta mesmo. Ou então quando você bebe uma cerveja com “aroma artificial de algo”, uma cachaça com “sabor idêntico de fruta”… esses produtos simplesmente não trazem a real experiência do alimento/bebida para seu corpo.

O que pode ser feito para sair do artificial?
Novamente digo aqui: não vamos montar uma inquisição contra os produtos industrializados. Sabemos como muitos desses produtos podem facilitar a vida da gente, agilizar muitos processos do nosso dia e, se consumidos sem exageros, não farão mal algum.

No entanto, existem formas de conseguir um produto tão saboroso quanto e melhor: um produto real, com sabores e cores reais.

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Uma forma de fazer isso é produzindo a sua própria água saborizada. Tudo o que você precisa é de água e a fruta de sua escolha. Que tal preparar uma jarra de água com laranjas em rodelas? Após algum tempo, a água irá adquirir o gosto da fruta – e você pode até trocar a água por água gaseificada e fazer um “refrigerante natural”.

Ou então troque o suco de frutas de caixa por suco de frutas com FRUTAS. Esprema ou bata tudo no liquidificador, adicione umas pedras de gelo e sinta o sabor verdadeiro da fruta. Uma solução mais prática e mais saudável que o suco de caixa é utilizar as polpas de frutas que vem congeladas também.

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Quer beber uma “Ice” mais natural e com fruta de verdade? Pegue a receita da água saborizada acima, troque a água por cachaça ou vodca, adicione um pouco de açúcar e deixe descansando por algumas semanas. Você terá uma vodca ou cachaça curtida com frutas reais, sem aromatizantes, sem cores artificiais!

Tente fazer essas receitas e compare o industrial versus o caseiro. Dê ao seu paladar a chance de conhecer o real sabor das coisas!

Conheça a Rota do Chimarrão

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Símbolo da tradição gaúcha, o chimarrão é uma herança cultural dos índios guaranis e se mantém presente no dia a dia não só de quem vive no Rio Grande do Sul, mas também nos estados vizinhos e países como Paraguai, Uruguai e Argentina. Atualmente, estima-se que 11 milhões dos que residem no estado consumam a bebida, feita apenas de água quente e erva-mate, mas cheia de truques que a tornam especial.

De olho no potencial turístico da cultura do mate, a cidade de Venâncio Aires, considerada a “Capital Nacional do Chimarrão”, criou a “Rota do Chimarrão”. Localizada na Região do Vale do rio Pardo, o município de 65 mil habitantes produz cerca de 3,5 mil toneladas de erva-mate por ano e é também o maior produtor de tabaco do país.

A movimentação econômica gerada pelo mate rendeu à cidade não só o título de capital da bebida, como também a criação da Feira Nacional do Chimarrão (Fenachim), realizada anualmente, no mês de maio. A “Rota do Chimarrão” inclui cinco atrações, como a “Escola do Chimarrão” e o “Museu Agrícola”. Confira as opções de visita:

Escola do Chimarrão

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Parece fácil, mas o preparo da bebida tem várias artimanhas e nessa escola os visitantes podem participar de uma aula para aprender a fazer até 36 tipos diferentes de “chimas”. Entre o preparo e o momento de consumir o chimarrão, há outras informações importantes que também são repassadas, como as regras de etiqueta para compartilhar o mate. Além dos ensinamentos, quem faz o tour conhece a história, o processo de fabricação e os dez mandamentos do chimarrão.

Casa do Mate
Depois de aprender a história e dominar todo o processo de produção do chimarrão, quem quiser levar para a casa essa tradição, vai precisar dos utensílios corretos. Por isso, a dica é passar na Casa do Mate, logo na entrada de Venâncio Aires. Cuias, bombas, térmicas, erva de diversos fornecedores e suvenires estão à venda para os fãs.

Museu Agrícola

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Neste museu, os visitantes poderão ver as peças antigas utilizadas na lavoura e nas casas dos homens que trabalhavam na roça. Ali se preserva o trabalho dos colonizadores que fizeram de Venâncio Aires sua terra. Com belas paisagens e animais de fazenda, o passeio complementa a Rota do Chimarrão com o clima rural.

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Na Praça Thomaz Pereira, ao lado da Igreja São Sebastião Mártir, está o monumento que é um dos principais cartões-postais de Venâncio Aires. A escultura em metal reproduz uma cuia, mas também auxilia no preparo dessa bebida típica. Em seu interior há uma esfera de metal com serpentina, que faz com que haja o fornecimento de água quente e fria nas torneiras localizadas nos suportes do monumento.

Artesanato e flores

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A Rota do Chimarrão inclui ainda uma parada na loja Artesanato Ideias Mil e na Floricultura Flor da Terra, ambos localizados em meio a uma paisagem cercada por ervateiras. Na loja de artesanato, são vendidos objetos diversos de decoração, feitos em crochê, jornal, madeira e algumas pinturas. Logo ao lado está floricultura com uma variedade de plantas e flores.

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+ Com informações do Ministério do Turismo.

Você sabe o que é comida de verdade?

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Carne recheada com batata rústica – isso é comida de verdade (crédito da imagem)

O sistema alimentar está mudando diante dos nossos olhos. Se você, caro leitor, estiver na casa dos 30 anos ou mais, certamente lembrará que até há alguns anos, as empresas tinham liberdade total para criar o que desse na telha. Os ingredientes só tinham valor como item de custo, ou seja, quanto mais barato, melhor. As embalagens sequer informavam os “ingredientes” ou a famigerada “tabela nutricional”.

De lá para cá, o cenário vem mudando gradativamente… via pressão popular, regulamentação, guerras comerciais… enfim, fato da vida é que, hoje, já vemos muitas empresas mudando de estratégia, retirando ingredientes que não sabemos pronunciar e enaltecendo a (pouca) quantidade de elementos utilizados. Será que essas “coisas” estão se tornando comida de de verdade? As mudanças são só mais uma jogada de marketing de olho nas tendências? Os alimentos industrializados estão mais “saudáveis”? Mas, afinal, o que é comida de verdade?

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O que tem nessa manteiga? (crédito da imagem)

Creio que comida de verdade sejam aqueles alimentos que conseguimos reconhecer como comida, que conseguimos entender do que são feitos, a exemplo da manteiga = gordura do leite batida com sal

E muito diferente da margarina = gorduras vegetais hidrogenadas, sebo animal, ácido sulfúrico, leite de vaca, soda cáustica, ácido benzoico, ácido butil hidroxitolueno (explosivo), galato propila, corante artificial (CI, CII, etc.), aromatizantes artificiais (PI, PIV), antioxidantes artificiais (AV, AVI e AVIII), estabilizantes artificiais, vitamina “A” sintética ou acetato de vitamina A2,20.COC Co).

Quando nos deparamos com milhares de ingredientes que não entendemos, como podemos confiar neles? Quer outro exemplo? Veja alguns elementos estranhos que encontramos em um inofensivo biscoito recheado: emulsificante lecitina de soja, ésteres de mono e diglicerídeos de ácidos graxos com ácido diacetil tartárico, bicardonato de amônio… gente, o que são essas coisas? Era para ser apenas um biscoito… farinha, açúcar, manteiga…

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Tem uma tabela periódica inteira dentro desse biscoito (crédito da imagem)

O desejo pela comida de verdade surge quando falta transparência por parte da indústria alimentar. No passado, a informação não era tão acessível, mas atualmente, em poucos segundos, eu consigo, por exemplo, ter acesso à infinita lista de ingredientes do biscoito ou da margarina, citados anteriormente. Ao assistir um vídeo no YouTube, por exemplo, eu consigo entender por que as florestas na Ásia estão sendo desmatadas para se plantar palma e extrair óleo para fazer chocolate…

Hoje, tem-se acesso a um mundo de informações que nos fazem pensar e refletir sobre as nossas escolhas: imagine se no tempo dos seus avós discutia-se sobre agrotóxicos, transgênicos, desmatamento, alimentos com excesso de sal, açúcar e gordura… e como isso se materializa nas nossas escolhas e na comida que chega ao nosso prato.

Isso é um fato: as pessoas têm se preocupado mais com o que comem. Ainda não é uma tomada de consciência absurda, existe muita confusão e informações dúbias, mas há uma mudança em curso. Elas estão se preocupando mais, procurando entender o que é ou não comida de verdade. A máxima do Michael Pollan no livro “Regras da Comida”, para nos ajudar nas nossas escolhas, é demais:

“Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida”

Quando você prepara o seu próprio alimento, você está fazendo comida de de verdade – com poucos ingredientes é possível fazer coisas maravilhosas. Quando você privilegia os pequenos produtores você está apoiando a comida de verdade. Quando você opta por alimentos da sua região, você está investindo na comida de verdade.

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Você sabe quem planta o seu alimento? (crédito da imagem)

Futuro do planeta
A segurança alimentar é um tema-chave para a sustentabilidade do nosso planeta. Segundo dados da ONU, a agropecuária é responsável por 22% das emissões de gases de efeito estufa no mundo. No Brasil, essa proporção sobe para 60%!

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Fronteira agrícola avançando sobre a mata (crédito da imagem)

Estima-se que até 2022 o nosso país necessitará expandir sua área agrícola em cerca de 7 milhões de hectares e produzir 30% mais carne bovina para suprir demandas por alimentos no mundo, segundo o Ministério Agricultura. E aí faz como? Termina de desmatar a floresta amazônica? Trata-se de um modelo agroindustrial que simplesmente não faz o menor sentido.

Quer número pior? A comida desperdiçada no mundo, cerca de 1,3 bilhões de toneladas, responde por mais emissões de gases causadores de efeito estufa do que qualquer país, exceto China e Estados Unidos.  Se não houvesse tanto prejuízo com o desperdício de alimentos, o problema da fome no mundo poderia ser facilmente resolvido sem a necessidade de se derrubar mais uma árvore para isso.

E aí, quando passamos a nos preocupar com a comida de verdade, essas reflexões passam a vir à tona e começamos a pensar em questões como “preciso mesmo comer carne vermelha todo santo dia?”. Como bem ensina a Kapim, em seu divertido programa Socorro! Meu Filho Come Mal!, mais do que doses diárias de carne, nossos pratos precisam ser coloridos, variados!

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Cozinhe! (crédito da imagem)

Já falei sobre isso em outro post e volto aqui, ao final deste artigo, para reforçar a mensagem: vamos cozinhar mais em casa! Quanto mais se cozinha, mais se aprende sobre o que está acontecendo com o seu corpo, com o meio em que você vive e sobre as pessoas que você ama e estão ao seu redor. Cozinhar é um ato político, cozinhar é uma declaração de amor! Comida é liberdade! Precisamos cozinhar mais comida de verdade

Da beleza de moer o nosso próprio café

Quando li este texto da Mónica Guerra Rocha, idealizadora do Comida do Amanhã, foi amor à primeira vista! Adoro café e uma das razões deste blog existir é o entusiamo que tenho pela comida como elemento de transformação – para melhor – do nosso planeta. Não resisti e pedi à Mónica para reproduzi-lo na íntegra por aqui. Confira e apaixone-se também:

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Da beleza de moer o nosso próprio café

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Este texto poderia ser uma carta de amor. Poderia também ser uma despedida, um até mais ver. Poderia ser um memorial ou um poema, mas não. Este texto não é sobre nós mas sobre o que fica além de nós. Sobre como é que de encontros nascem novas formas de reencontro com o mundo, com a simplicidade, e no nosso caso, sempre com ela, a comida.

Pulando a parte de quando nos conhecemos, vamos logo para o segundo dia. Fomos almoçar, e sem muito assunto, ainda de olhos vidrados de encantamento, disseste que precisavas comprar café. Levaste-me para um shopping center (que logo descobriste que era um dos piores lugares para me levar) e fomos naquela franquia americana da logo da sereia, comprar café. Tu dizias com orgulho que compravas sempre o grão, do mais forte e torrado, e que moías todas as manhãs. Que aquele era o melhor café, e a tua fala trazia uma propriedade que me fixava ali, curiosa. Dizemos muitas coisas quando conhecemos alguém, não é mesmo? “Só como sorvete de pistache; Não abro mão de suco de caixinha; Deixo de fumar em qualquer momento; Não durmo em camping; Para toda a vida; Para nunca mais; Queijo só daquela marca; Café só do mais torrado, só da logo da sereia.” Tudo se reavalia depois, porque é da troca e da convivência que nasce a sabedoria. Nascem dificuldades também, mas este texto é sobre café, então voltemos ao tema. Comprado o grão abriste o pacote, cheiramos, puxaste o moedor do armário, moeste o grão, e a cozinha foi invadida por aquele cheiro maravilhoso. Fizeste o café na prensa francesa e eu achei tudo o máximo. Não te contei no dia que era um ritual que eu também já trazia porque queria provar como se fosse tudo novo, sem memória, como se fosse uma primeira vez.

Desde então se deram centenas de rituais semelhantes. Mas tudo sempre especial.

Apaixonados pela tradição que decidimos não abandonar (ao contrário do suco de caixinha, do camping e da marca do queijo) fomos cada vez mais fundo. Conhecemos o Sérgio e o café dele, e entendemos que tem muitos tipos de torra de café. Que na verdade os cafés mais torrados são na maioria das vezes para disfarçar o gosto ruim de um fruto de péssima qualidade que foi colhido quase podre. Aprendemos que o melhor café do mundo produzido no Brasil geralmente não é bebido por cá, e que a borra queimada que vemos por tantos lugares é resultado de um fruto doente, de um processo errado, de uma desvalorização da produção, da falta de cafés especiais acessíveis, de um crime diário com um alimento de ouro.

Percebemos que o café melhor é o mais claro, torra mais leve, e que ele chega a ter aromas cítricos e frutados. Que é suave, e que nele podemos sentir melhor os óleos naturais, deixar o aroma dissolver na boca. Que os amendoados e achocolatados, mais fortes, não chegam a ser aquilo que se bebe por aí, que café queimado não deveria sequer ser vendido, que é uma ameaça inclusive para a saúde de todos nós. Que café não é laxante mas diurético (até isso a gente aprendeu), e que café bom vai nutrir a alma e fazer do acordar um lugar muito mais especial.

Aprendemos a distinguir a cor dos grãos, verificamos se eram de tamanhos aproximados uns dos outros, como acontece muito com as safras especiais. Num dia de inverno, de meia e pijama, fizemos o teste do olfato e ficamos babões quando os dois adivinhamos o tipo de torra pelo cheiro. Sim, temos sempre pelo menos dois tipos de grão diferentes em casa, em duas caixas especiais, e escolhemos cada um de acordo com o humor – torra mais forte ou mais fraca, dias mais frios ou mais quentes, humor mais desperto ou cabisbaixo.

Sabemos até adivinhar o grão que o outro está querendo tomar antes mesmo de perguntar. E isso é totalmente verdadeiro: nunca ninguém diz que não a um café por aqui….

Deixamos de ter açúcar em casa. O leite nunca mais viu a geladeira, o achocolatado passou o prazo de validade no começo do pacote. Mas quilos e quilos de grãos de café especiais foram lambuzados em vários despertares.

Veio a moka para o café italiano, o coador de pano que o teu pai deixou em casa, a prensa francesa ultimamente faz mais chás do que café. Oferecemos moedores a amigos, recomendamos grãos, queremos fazer mini cursos de barista, aprender a tirar um bom expresso, namoramos por meses uma aeropress para fazer o café coado mais forte mas sem tirar os aromas e os óleos.

Quando entendemos que dentro de um grão tem um universo inteiro, entendemos também que cada escolha que fazemos para a casa onde moramos, para as pessoas que queremos e que amamos, são profundas e transformadoras. O café de grão veio junto com a sacola de orgânicos, o liquidificador potente para tirarmos melhor proveito das sementes, dos leites vegetais, das vitaminas de manhã. O suco de caixinha foi trocado por laranjas frescas, espremidas na hora e o camping que nunca iríamos foi destino em vários momentos que quisemos ficar mais perto do mais simples.

Tem muita beleza nisso, comentamos entre nós. Privilegiados que somos, podemos escolher tudo, até o grão em cada manhã. E entendemos que deve ser trabalho e missão de todos incentivar que essas produções, esses hábitos se tornem tão essenciais que virem acessíveis a cada um, e que isso sim, é soberania e escolha de fato.

O café já foi dos produtos mais valiosos do mundo junto com o petróleo. Milhões de sacas foram queimadas na crise de 1929, para que o mercado o mantivesse numa supervalorização. Seguimos queimando nosso café quando queimamos a possibilidade dele ser tudo o que a natureza se dispõe. É um fruto mágico e precioso, que encontrou por aqui um lugar onde se floresceu e transformou todo o país. Tem pouco mais de 2 séculos desde que foi trazido para cá e já tanto aconteceu. Um símbolo nacional, elemento tão forte de uma cultura inteira, o café é muito muito mais do que uma infusão quente de um grão torrado. O resgate desse lugar, o respeito pela sua história, pelo
simbolismo que traz (o café era considerado no passado uma bebida maomista, e proibida no mundo cristão pelos seus efeitos estimulantes) são chaves para retomar o respeito pela produção, devolver ao produtor a liberdade e a possibilidade de ter colheitas especiais de produtos de muita qualidade.

A revolução pela comida de verdade começa também por aí. No momento de escolher o seu grão, saber da história do produtor, moer para ter o pó, compartilhar e celebrar, que fazem do café um ritual para além da bebida e isso é profundamente transformador. Todos os dias, pelo menos uma vez por dia, honrar e agradecer a todo o valor que existe dentro de uma xícara é de uma sensibilidade e de uma beleza imensurável.

Ontem fizemos pão pela primeira vez, entre alguns dos nossos últimos cafés. O trigo, o fermento, a água, o sal. Lembrei do primeiro dia.

E se existiu entre nós amor em dividir as coisas simples, essas são aquelas que ficarão para sempre.

Rio de Janeiro, 12/04/2017