3 Perguntas Para Leo Spinardi

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Leo Spinardi é amigo de longa data, tipo, há mais de 20 anos… Também é jornalista, curte desenho (e desenha pacas!), somos compadres e, no passado, experimentamos juntos o empreendedorismo no underground carioca tocando no Abaixo de Zero. Além disso tudo, hoje, dividimos uma temática que nos mantêm ainda mais ligados: a comida.

Há pouco mais de três anos, Leo começou a sentir novamente um comichão criativo-empreendedor-independente, mas desta vez trilhando um novo caminho, vendendo tapioca. “Ué, você virou ambulante?”, brinca ele ao imaginar a reação das pessoas quando decidiu criar a Tapinha e lançar-se em uma nova experiência. Pois bem, eis que de lá para cá, a ideia tomou forma e já se vão mais de 100 eventos para a conta. Saiba mais sobre essa história, confira o nosso bate-papo logo abaixo.

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1. Por que você escolheu a tapioca?
Eu não escolhi a tapioca. Eu diria que foi ela quem me escolheu. Como assim? Quando a moda começou a pegar mais firme aqui no Rio, tipo 2014/2015, eu passei a fazer em casa porque me lembrava de adorar quando comia nas minhas viagens ao Nordeste. E a galera aqui de casa começou a curtir. Os familiares, os amigos. E estava rolando aquele boom de feiras gastronômicas. Pensei, por que não levar isso pra fora de casa?. E desde que essa ideia passou pela minha telha, comecei a ter insônia. Precisava levantar da cama pra anotar ideias de nomes, sabores, formatos, projetos. Fui alimentando o monstrinho e pisei fundo em colocar a ideia em prática com o mínimo de investimento possível. E lá se vão 3 anos e mais de 100 eventos.

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2. Quais são as dificuldades de empreender com comida no Rio de Janeiro?
A Tapinha continua sendo um projeto de guerrilha para mim. Ainda estou caminhando para estruturá-la como um negócio, como uma empresa, oficial. Ainda é CPF! Então, as dificuldades que enfrentei foram proporcionais ao tamanho do projeto. Ou seja, pequenas. Tributação, gestão de pessoas, fornecedores… Tudo isso ainda não apresentou seu verdadeiro potencial de dificuldade pra mim. Para não deixar sua pergunta sem uma boa resposta, acredito que as dificuldades sejam proporcionais às oportunidades. Se por um lado é alta a competitividade de outros tantos bons produtos e serviços e a cobrança dos órgãos fiscalizadores, também é alta a gama de possibilidades e a demanda do público por uma boa oferta.

3. O que te inspira?
É algo bem egoísta. É sobre a minha evolução. É sobre morrer de medo de fazer algo um dia e, um tempo depois, com preparo, com teste, com erro, com risco, fazer a mesma coisa com um nível de execução de quem faz aquilo há milênios, tranquilo e seguro. Ou seja, é sobre avançar sobre as zonas de riscos, transformá-las em zonas de aprendizagem até se tornem finalmente zonas de conforto. E a Tapinha, pequenininha como ela ainda é, está sendo uma baita universidade nesse sentido.

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+ Imagens: divulgação

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Três Perguntas Para Luisa Abram

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Quando ouvi falar do trabalho da Luisa Abram, há pouco mais de dois anos, fiquei encantado com a sua história: uma menina de São Paulo que foi no Acre em busca de variedades selvagens de cacau para fazer, no quartinho de serviço do apartamento, um chocolate simplesmente incrível. Dias depois, por acaso, esbarrei com o chocolate dela em um empório, em Copacabana. Foi um sinal! Me agarrei à barra e, então, ao colocar o primeiro pedaço na boca, fui parar no meio da floresta amazônica! Que chocolate intenso, frutado, com textura aveludada… ele derrete na boca sem que o amargor prevaleça! Fiquei pensando, “como ela consegue fazer estes chocolates em casa?”, e comecei a seguir seus passos.

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De lá pra cá, Luisa adquiriu um espaço próprio para a fabricação, aumentou a variedade de opções (já são oito barras com cacau de diferentes regiões), ampliou a distribuição e suas criações, hoje, são reconhecidas mundialmente. A qualidade e o modo artesanal de preparo, porém, se mantêm os mesmos! Qual é o segredo?

Depois de acompanhar e conhecer melhor o seu trabalho, descobri como esta jovem de apenas 26 anos faz chocolates tão incríveis. Não tem mistério. O reconhecimento dos chocolates é fruto de muito esforço e dedicação em cada etapa do processo produtivo, desde a busca por matéria-prima junto a comunidades ribeirinhas até a identidade visual das embalagens dos chocolates. Isso é “Bean to Bar”, movimento de produtores que buscam uma forma mais justa e sustentável de produzir chocolates de altíssima qualidade, o mais natural possível, para o consumidor final.

Tive o prazer de conversar com a Luisa pelo bate-papo do Instagram, para saber um pouco mais do seu belo trabalho. O resultado da nossa prosa segue logo abaixo.

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Por que chocolate?
Costumo dizer que eu escolhi o chocolate e o cacau me escolheu! Digo isso por que sempre amei cozinha e, principalmente, a cozinha doce. Ainda na faculdade de gastronomia, meus pais me presentearam com um livro, o Elements of Dessert. Nele, eu encontrei a receita do que, hoje, chamamos de “Bean to Bar” ou “Do Grão à Barra”, e me apaixonei! Eram seis imagens que, na sua elegância, me encantaram logo de cara! E os desafios que surgiram a partir daquela leitura se mostraram tão envolventes que foi impossível virar as costas para o chocolate. Essa é a primeira parte, onde eu escolhi o chocolate. O cacau já foi uma aventura do começo, descobri que o cacau é nativo da região Amazônica, e dessa descoberta veio a vontade de conhecer essa planta que está na cultura humana há milênios e ainda não foi totalmente domesticada. A exuberância e grandiosidade da floresta são de tirar o fôlego de qualquer um.

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Imagino que seja um processo desafiador trabalhar com uma variedade de frutos selvagens e heterogêneos – bem diferente do cacau domado e de sabor padronizado. Como você sintetiza esse universo em uma barra de chocolate?
O controle de qualidade é muito importante, tanto na fábrica quanto na floresta. O cacau é o protagonista do sabor e o trabalho na fábrica só ressalta os sabores já presentes nos grãos. As barras de chocolate Luisa Abram são feitas com a intenção de transportar o cliente para a floresta, com sabores exóticos e que revelam o terroir de cada região.

O chocolate brasileiro de origem, há alguns anos, vem se destacando e sendo reconhecido. Como é estar no epicentro desse movimento e quais são os desafios de adotar o modelo “Bean to Bar”?
Há quatro anos, quando comecei a fazer chocolate no quarto dos fundos de casa, jamais imaginei que o “Bean to Bar” me traria até aqui. Hoje, são seis países que, além do Brasil, vendem as barras de chocolate selvagem Luisa Abram. É um mundo novo para mim e uma aventura a cada dia! Não tenho rotina! Atualmente, meu maior desafio é manter a qualidade, pois não depende apenas de mim, e sim dos ribeirinhos que estão na mata fermentando e secando o cacau. Por isso, sempre viajo para as comunidades, assim, consigo ensinar e levar o chocolate para eles provarem! Também tenho a constante busca para obter novos cacaus e, com isso, aumentar a linha de produtos. Além disso, a logística de trazer o cacau destas localidades até São Paulo é bem demorada.

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3 Perguntas Para Sei Shiroma

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Sei Shiroma nos tempos de Ferro & Farinha ambulante

Quando Sei Shiroma desembarcou no Rio, há pouco mais de 6 anos, mal podia imaginar como sua vida iria se transformar do lado de cá do Atlântico Sul… Sei casou com uma brasileira, trocou a publicidade pelas pizzas e começou uma louca aventura a bordo de um forno ambulante, batizado de Ferro & Farinha. Suas pizzas viraram um hit instantâneo e o empreendimento logo ganhou uma loja física, no Catete.

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Pizza, pizza e mais pizza!

Pense em pizzas com massa de fermentação natural, coberturas incomuns, como couve marinada no shoyu e gengibre, alho confit e mel picante… e muita dedicação e seriedade no dia a dia de trabalho. Em pouco tempo, os prêmios começaram a pipocar e as filas na porta viraram rotina no minúsculo espaço da rua Andrade Pertence. Resultado: o Ferro & Farinha é considerado um dos melhores lugares para se comer pizza da cidade.

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Salão informal do South Ferro

Em 2016, o inquieto Sei decidiu se lançar em novos voos e abriu o South Ferro, em Botafogo. O novo restaurante mantém o clima descomplicado da sua irmã do Catete, mas vai além das pizzas e oferece um variado e inventivo cardápio, com diversos pratos de inspiração brooklyniana-oriental, se assim podemos dizer. Estão lá os  kimchis, ramens, dumplings, tempurás… e também hambúrgueres, massas, pães… uma explosão de sabores não convencionais! Nos finais de semana, costuma-se oferecer brunchs generosos e também organizam-se eventos temáticos que estão atualizando o paladar do carioca com sabores globais.

Confira o bate-papo que eu tive por e-mail com Sei Shiroma:

1. De onde vem o seu fascínio pela culinária?
Foi uma confluência de fatores: meus pais tinham um restaurante e o meu cotidiano era ver o salão cheio e a cozinha bastante agitada. Eles também me levavam para outros restaurantes e a cultura de comer fora e de cozinhar para servir foram elementos com os quais tive proximidade desde que nasci. E eu assistia muito o canal Food Network e os titãs da época: Emeril Lagasse, Mário Batali, Hiroyuki Sakai e Masaharu Morimoto, do Iron Chef, para mencionar alguns.

2. Sua pizza teve uma ascensão meteórica na cena gastronômica carioca. Você ficou surpreso com todo esse reconhecimento?
Eu me sinto muito honrado e lisonjeado que tantas pessoas reconhecem e desfrutam do nosso trabalho. Eu trato as pizzas do Ferro & Farinha como um estudo que está sempre em progresso, uma pesquisa em curso, de como posso melhorar.

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A pizza que virou hit

3. Você pode dividir conosco como é o processo criativo ao elaborar seus pratos?
Atualmente, eu tento fazer coisas que são simples e bem executadas. O processo é sempre o mesmo, apurando uma ideia ou inspiração. Uma nova ideia pode surgir de várias maneiras: algo que me inspirou, algo que achei bem mediano e penso em como fazer melhor ou algo que nunca tinha provado, mas fico curioso em provar. O desafio é não complicar e fazer de uma maneira que o cliente entenda o que eu queria comunicar através do prato. Além dos lugares convencionais para quem cozinha profissionalmente, eu me inspiro também com a comida dos outros e com viagens gastronômicas. A música é também uma importante fonte de inspiração, eu escuto uma gama de estilos que podem me influenciar a tomar decisões baseadas na energia de uma só canção.

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O menu do South Ferro e seu forte sotaque oriental

3 Perguntas Para Teresa Corção

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Teresa Corção é uma verdadeira defensora dos sabores brasileiros! Chef talentosa, ativista e entusiasta da ecogastronomia, ela carrega nas costas a nobre missão de valorizar pequenos produtores e promover a melhoria da qualidade alimentar da nossa sociedade.

Fundadora do Instituto Maniva e do grupo Ecochefs, Teresa traz a militância do gosto também para a cozinha do seu restaurante, O Navegador, no Rio de Janeiro, que tem um cardápio inteiro marcado pelo o uso de ingredientes da agricultura familiar, de Norte a Sul do país!

O trabalho da ecochef não é fácil, mas o resultado do esforço e dedicação se fazem presente tanto nos seus pratos quanto na rede que formou em pouco mais de 18 anos de ação, ao fomentar iniciativas em prol da educação do gosto, da ecogastronomia e do resgate da memória alimentar. Confira o resultado da conversa que tivemos no lindo salão d’O Navegador:

1. Como surgiu o seu interesse pela ecogastronomia?
Tudo começou em 2001, em uma viagem para participar de um evento do Slow Food, em Portugal, chamado “Slow Food Awards”. Eu não tinha ideia do que viria pela frente! Neste encontro, houve um momento de premiação para pequenos produtores e um grupo de mulheres indianas que trabalhavam com resgate de sementes foram homenageadas. Aquele trabalho belíssimo me chamou muito a atenção. Eu fiquei impressionada com aquele gesto de reconhecimento direcionado para as mãos de quem produz alimentos e ingredientes que, por sua vez, se transformam nos pratos que chegam nas mesas dos restaurantes. Essa experiência mudou a minha visão sobre a gastronomia.

Voltei para o Brasil completamente imersa no conceito de ecogastronomia e no ano seguinte, em 2002, participei de um evento no Recife onde eu não conhecia metade dos ingredientes disponíveis para cozinhar. Dessa metade, quase tudo era derivado de mandioca! Quando voltei para o Rio, perguntei para a minha equipe de cozinha, quase todos nordestinos, se eles sabiam o que era uma Casa de Farinha. Todos sabiam! E também conheciam aqueles derivados da mandioca que, para mim, ainda eram uma novidade. Aprofundei a conversa e descobri que essa tradição gastronômica não estava sendo passada para as novas gerações, já nascidas no Rio de Janeiro. Aí tive o estalo de iniciar as oficinas de tapioca e várias ações com foco na educação do gosto e valorização de pequenos agricultores, culminando na criação do Instituto Maniva e do projeto Ecochefs.

2. O que é preciso para que o consumo de alimentos frescos, sazonais e sustentáveis torne-se mais acessível?
Para responder a essa pergunta eu vou até a raiz do problema, que está no campo. Falta assistência técnica rural qualificada e acessível para pequenos produtores. Faltam políticas públicas para que a agricultura familiar esteja mais qualificada para enfrentar problemas logísticos e de comercialização. Falta educação contextualizada que prepare o jovem rural para os desafios do campo. Se dermos respostas a questões como estas, certamente, os efeitos serão sentidos em toda a sociedade e, por fim, o acesso aos alimentos frescos não se restringirá somente à classe média ou a ações que fomentam a alimentação saudável.

3. Quais são os desafios de ser uma ecochef no Rio de Janeiro?
Os desafios são muitos, mas eu gostaria de destacar três: 1. o acesso ao produtor e ao produto, pois não temos uma logística que facilite esse canal de comercialização e troca; 2. convencer a sua equipe sobre a importância de valorizar o pequeno agricultor e mostrar a ela o impacto positivo que esta relação traz, tanto para nós quanto para os produtores e também para os clientes; e 3. sensibilizar os nossos amigos chefs que não estão muito atentos a esta temática. Muitos não entendem – ou não querem entender! – que as escolhas que eles fazem trazem benefícios diretos para toda uma cadeia produtiva, além de influenciar diretamente nos hábitos e escolhas dos consumidores. Falta uma visão mais política e sistêmica de todo esse ciclo.

3 Perguntas Para Vera Masagão Ribeiro

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Crédito da imagem: divulgação

Conheci os azeites OLIQ em uma das edições da Junta Local, há quase dois anos, e foi amor à primeira vista. Imaginem um azeite artesanal fresquíssimo, com personalidade e feito aqui no Brasil! Pois é, a região da Serra da Mantiqueira, na divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo, está vivenciando um nascente movimento de produção de azeites locais, a partir de oliveiras cultivadas lá mesmo, adaptadas ao clima das montanhas.

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Crédito da imagem: Junta Local

Hoje, o território conta com uma penca de empreendedores rurais e lagares (maquinário para extração de azeite) que, juntos, estão ensaiando uma silenciosa revolução no consumo de deste “ouro líquido” em território nacional. Para saber mais dessa história, conversei por e-mail com a Vera Masagão Ribeiro, uma das sócias do OLIQ, que nos conta nas próximas linhas um pouco dos desafios e prazeres da nova olivicultura brasileira.

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Crédito da imagem: Leonardo Finotti

1. Por que oliveiras e azeites?
Cristina Vicentin, uma das sócias da OLIQ, é de Paraisópolis (MG) e herdou da família um pedaço de terra nos altos do Coimbra, em São Bento do Sapucaí (SP), município vizinho, já no estado de São Paulo. Ela tinha o desejo de produzir algo na terra e lembrou-se da infância, de comprar azeitonas produzidas na região, no mercado municipal. Cristina foi uma pioneira ao iniciar um dos mais antigos pomares comerciais na Mantiqueira, em 2003. Pelas mãos dela, eu e Antônio Augusto Gomes Batista, meu marido e sócio da OLIQ, chegamos à região e nos apaixonamos pela paisagem, pelas pessoas e pela possibilidade de cultivar oliveiras. Em 2013, compramos uma fazenda próxima a da Cristina e plantamos os primeiros mil pés. No ano seguinte, montamos o lagar, nos associamos na criação da Marca OLIQ e, desde então, estamos juntos nessa aventura.

2. Como é estar a frente de uma iniciativa tão inovadora em solos tupiniquins?
Os desafios são muitos, especialmente na área agronômica, pois, para uma cultura perene, 30 anos de pesquisa, que é o que a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) tem nas costas, é muito pouco em termos de conhecimentos. A EPAMIG pesquisa cultivo de oliveiras em sua fazenda experimental, em Maria da Fé. Nós ainda precisamos acumular muito conhecimento científico e prático… Imagine uma comparação com a cultura do café, que tem mais de 100 anos no Brasil. No caso da olivicultura de montanhas, os conhecimentos acumulados na Europa não são aplicáveis aqui sem adaptações, pois o clima e o solo são diferentes. Por outro lado, o fato de ser uma inovação no campo da agricultura tem suas vantagens, pois desperta a curiosidade e o interesse dos consumidores e da mídia. O desafio é chegar a ser conhecido das pessoas, mas quando elas ficam sabendo, se interessam e vão atrás.

Além do desafio agronômico, produzir bem, de forma integrada e idealmente orgânica, temos um desafio grande que é o preço, ainda muito alto, pois a nossa produção é pequena e artesanal. Por conta da topografia montanhosa, o trabalho de trato e colheita é quase todo manual. Isso encarece o produto, mas também agrega valor humano e ecológico. Não é uma commodity, é um alimento cuja produção envolve pessoas, paisagens e um saber fazer que se constrói. Procuramos mostrar isso para os consumidores, que têm cada vez mais buscado alimentos que tenham uma origem e contem histórias, e não sejam apenas commodities.

3. O que há de tão inspirador na olivicultura e na produção de azeites?
O azeite de oliva é um alimento milenar. Originário do mediterrâneo, ganhou o mundo e está nos hábitos alimentares de muitos povos. É um solvente poderoso, por isso assimila os aromas e sabores daquilo que entra em contato e funciona tão bem como tempero. Da mesma forma, a olivicultura, para se expandir pelo planeta, tem que absorver os aromas e sabores de cada terroir, de cada povo. Isso é mágico e essa é a ideia que nos inspira: integrar o universal ao espírito único das nossas montanhas, produzindo um alimento original e fresco para o consumidor brasileiro.

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Crédito da imagem: Junta Local
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Crédito da imagem: Leonardo Finotti
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Crédito da imagem: Leonardo Finotti

3 Perguntas para Luiz Eduardo Rocha (Zerezes)

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Luiz Eduardo Rocha, Henrique Meyrelles e Hugo Galindo, sócios da Zerezes
Com pouco mais de cinco anos em atividade, a Zerezes tornou-se uma marcas de óculos escuros altamente cobiçada, tanto por quem curte design quanto por quem busca produtos que vão além do esvaziado conceito de “sustentáveis”. Engana-se quem pensa que os óculos da Zerezes têm qualidade inferior ou são descartáveis. Já manuseei estas belezas na lojinha do MAR e eles são realmente bonitos, muito bem acabados e incrivelmente leves.
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A história da marca começou em 2011, na cidade do Rio de Janeiro, fruto de um projeto de estudantes de design que, na época, tentaram comprar óculos escuros de madeira, feitos nos Estados Unidos, mas não conseguiram. Sabe qual foi a solução? Eles fabricaram os modelos por conta própria, mas com um detalhe interessante: utilizaram, como matéria-prima, restos de madeiras encontrados em canteiros de obras espalhados pela cidade!
A brincadeira deu tão certo que, em menos de um ano, o projeto virou realidade e, hoje, a Zerezes fabrica não somente óculos escuros estilosos, mas fomenta também toda uma rede de fornecedores locais em um inovador sistema descentralizado de produção “complexo, mas ao mesmo tempo muito rico e enxuto”, explica Luiz Eduardo Rocha, um dos sócios do empreendimento, em entrevista por e-mail que você confere logo abaixo:
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1. Como é o processo produtivo para a fabricação dos óculos, desde a seleção dos materiais até a venda?
O fato de não existir uma indústria que oferecesse um serviço de produção de óculos de madeiras reaproveitadas, fez com que tivéssemos que desenhar, desenvolver e capacitar todo um arranjo produtivo próprio. Isso – aliado à nossa vontade de criar produtos mais sinuosos, resistentes e bem feitos, sem necessariamente ter que virar fábrica – fez com que criássemos um sistema descentralizado e complexo, mas ao mesmo tempo muito rico e enxuto.
Atualmente, trabalhamos com alguns tipos de materiais, mas o carro-chefe que chamamos de Madeiras Redescobertas, se inicia com a coleta da madeira, que pode vir desde o seu encontro casual, em caçambas de entulho, até pessoas se desfazendo de algum móvel que entram em contato com a gente. Nessa primeira etapa, já existe um filtro por espécies, dimensões e estados das madeiras. Feita a primeira triagem, levamos Perobas Rosas, Perobas do Campo, Pinhos de Riga e Jacarandás para o Valmir, que as processa, transformando madeira maciça em lâminas de 0,6mm. Essas lâminas vêm para o nosso sobrado, onde definimos as “misturas” e as prensamos em curvas. Já no formato certo, essas chapas prensadas passam por um corte à laser (onde os modelos são definidos) e seguem para o Neinha – responsável por transformar matéria-prima em óculos. Lá acontecem as “operações óticas” – são feitos rebaixos, inserção das charneiras (dobradiças), abertura do vizel (canaleta onde entram as lentes), corte dos ângulos, encaixe das hastes e uma primeira boleada para deixar os óculos mais arredondados. Feito isso, distribuímos as peças para uma rede de lixadores, que, com lixas 120, 220 e 400, deixam os óculos super bem acabados e prontos para receber uma fina camada de resina de mamona – atóxica e biodegradável – para selar e impermeabilizar a madeira. Assim que secam, encaminhamos, simultaneamente, as hastes para gravação e as frentes para colocação das lentes, e quando voltam, são montados e passam por um processo de qualidade antes que entrem em estoque e sejam distribuídos pelos nossos pontos de venda.
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2. Existe uma miopia acerca de produtos sustentáveis: muitos acham que é marketing verde, outros apenas mais um nicho e, ainda, há aqueles que criticam o preço, em virtude do baixo custo das matérias-primas. Como vocês lidam com esses questionamentos?
Acreditamos que as marcas têm responsabilidade sobre aquilo que colocam no mundo e os clientes têm o poder de escolher o que querem consumir. Ser questionado faz parte de um processo de transição que estamos vivendo, ainda mais num estágio, assim, tão incipiente. E acreditamos que isso, de fato, faz com que as empresas repensem seus atos e evoluam. Hoje tentamos estabelecer um canal super aberto com os nossos clientes. Quando alguém questiona o nosso preço, explicamos que existe um arranjo produtivo local por trás da nossa produção que está sendo remunerado de forma justa, sem que espremamos suas margens em prol de lucros próprios. Que apesar do custo de aquisição de uma madeira às vezes ser menor, existe todo um beneficiamento do material que leva tempo e é super oneroso. E que escolhemos trabalhar com pessoas, com resinas menos nocivas, com reaproveitamento e garimpo de materiais, numa escala menor e desacelerada, com um suporte para consertos e reparos sem custos, e assim por diante. O mais legal é que, quando se dá acesso à informação e nos abrimos para o diálogo, as pessoas entendem e passam a valorizar cada vez mais.
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3. Por que trabalhar com design e sustentabilidade?
A Zerezes nasceu na faculdade de Design, formada por 4 designers de produto. Desde sempre, aprendemos e interiorizamos que ser “sustentável” não é (ou pelo menos não deveria ser) um atributo extra de um projeto. Ser “sustentável” é uma premissa. Costumamos dizer que a Zerezes é só a materialização de uma série de valores, práticas e um conjunto estético que compartilhamos e acreditamos. Poderia ser qualquer outra coisa. Enfim, não sei responder o porquê de se trabalhar com isso, mas me parece muito natural que esse tenha sido o nosso caminho 🙂
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3 Perguntas para Amon (Zebu Mídias Sustentáveis)

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A Zebu chegou até mim em meados de 2015. Trabalhamos juntos em uma iniciativa incrível da Rede Jovem Rural e eles souberam, com maestria, dar cara e forma ao evento, utilizando tinta orgânica, madeira de demolição, restos de tecido e cordas náuticas velhas. Desde então, virei fã e, há tempos, venho tentando marcar esse bate-papo com eles. Pois bem, a Zebu Mídias Sustentáveis não é só mais uma agência que faz trabalhos criativos e bonitos e ponto final. A ideia do empreendimento surgiu em 2010, como um projeto de faculdade da PUC-RJ, elaborado por três amigos. Dois anos depois, o negócio foi lançado oficialmente, tendo a sustentabilidade aplicada ao design como fio condutor de todas as suas atividades.

“Apesar de sermos designers, escolhemos o mercado de comunicação para atuar e a palavra ‘mídia’ para representar o que fazíamos. Tínhamos interesse em trabalhar tanto com o conteúdo (mensagem) quanto com a interface (produtos) de veiculação de mensagens. Acreditamos que a sustentabilidade é um input criativo necessário para criarmos projetos relevantes para a sociedade. Nunca nos prendemos a uma saída específica para os nossos projetos, pois entendemos que a sustentabilidade, o design e a criatividade são os definidores da natureza dos produtos.”, explica Amon Costa Cerqueira Pinto, um dos sócios da Zebu, que conta ainda com o Pedro Ivo e Rafael d’Ávila. Leia o resto da conversa que tive com o Amon, por e-mail:

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1. Você acredita que o design pode, de fato, encurtar o caminho que leva à sustentabilidade, em todas as instâncias?
Acredito. O design é uma área de saber que interage com todas as demais, assim como a sustentabilidade. É sempre difícil falar sobre esses conhecimentos que não se limitam a definições objetivas. Mas eu acredito que o design e a sustentabilidade estão, sim, relacionados. Ambos têm uma abordagem sistêmica, característica da nova geração de profissionais e cidadãos. O design cada vez mais se consolida como a melhor ferramenta para desenvolvimento de projetos (independente de serem produtos ou serviços). Enquanto isso, a sustentabilidade torna-se um ingrediente para que os projetos tornem-se mais inclusivos; gerem menos resíduos; e se atentem às demandas da sociedade. Direcionar soluções para essas áreas é um passo para desenvolver um projeto bem sucedido.

 

2. Eu poderia dizer que o design é parte do problema quando pensamos em produção e consumo. Como se pode conciliar as questões ambientais e econômicas, transformando a atividade em um agente promotor da sustentabilidade?
Não acho que o design seja parte do problema. O design é parte da solução. O problema é falta de educação. O design pode ser direcionado para geração de valor econômico, social e ambiental. Podemos desenhar produtos e serviços para funcionar em seu mais alto ciclo de valor. Com o design, conseguimos projetar o ciclo de vida de um produto para que ele gere valor em toda a sua cadeia de produção e consumo. Ferramentas de design thinking podem ser aplicadas como meios de diálogo intersetorial. Podemos conectar diversos setores da sociedade para pensar em questões que tocam a todos. Por trás do governo, das corporações e ONGs existem pessoas que sofrem com falta de saneamento, insegurança etc. Todos deveríamos estar interessados em resolver essas questões. Ou, ao menos, todos os que não estão entre os 1% de pessoas que detêm 50% da riqueza do mundo.

3. O que inspira vocês?
De princípio, nos inspiramos no besouro rola bosta. Na Zebu, funcionamos como um besouro! Um bicho mesmo! Tentamos contribuir para que os ecossistemas que estamos inseridos se tornem férteis, além de retornarmos toda a energia depositada e necessária para o besouro sobreviver. As relações simbióticas fazem parte também da natureza das relações humanas. Para que elas aconteçam precisamos estar harmonia e sincronia com os ciclos da natureza. Todas as iniciativas independentes e empreendedoras nos inspiram. Na natureza, a complexidade dos ecossistemas que estão em constante transformação e equilíbrio. Na música, por exemplo, nos inspiramos no rap. Em nossos pares, nos inspiramos na Goma, uma associação e rede de empreendedores que atuam nas áreas de economia colaborativa, sustentabilidade e inovação social; no Sistema B, um movimento que atua a partir de uma redefinição do conceito de sucesso nos negócios; e no CE100 Brasil, uma iniciativa da Ellen MacArthur Foundation para negócios especializados em economia circular.

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