3 Perguntas Para Teresa Corção

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Teresa Corção é uma verdadeira defensora dos sabores brasileiros! Chef talentosa, ativista e entusiasta da ecogastronomia, ela carrega nas costas a nobre missão de valorizar pequenos produtores e promover a melhoria da qualidade alimentar da nossa sociedade.

Fundadora do Instituto Maniva e do grupo Ecochefs, Teresa traz a militância do gosto também para a cozinha do seu restaurante, O Navegador, no Rio de Janeiro, que tem um cardápio inteiro marcado pelo o uso de ingredientes da agricultura familiar, de Norte a Sul do país!

O trabalho da ecochef não é fácil, mas o resultado do esforço e dedicação se fazem presente tanto nos seus pratos quanto na rede que formou em pouco mais de 18 anos de ação, ao fomentar iniciativas em prol da educação do gosto, da ecogastronomia e do resgate da memória alimentar. Confira o resultado da conversa que tivemos no lindo salão d’O Navegador:

1. Como surgiu o seu interesse pela ecogastronomia?
Tudo começou em 2001, em uma viagem para participar de um evento do Slow Food, em Portugal, chamado “Slow Food Awards”. Eu não tinha ideia do que viria pela frente! Neste encontro, houve um momento de premiação para pequenos produtores e um grupo de mulheres indianas que trabalhavam com resgate de sementes foram homenageadas. Aquele trabalho belíssimo me chamou muito a atenção. Eu fiquei impressionada com aquele gesto de reconhecimento direcionado para as mãos de quem produz alimentos e ingredientes que, por sua vez, se transformam nos pratos que chegam nas mesas dos restaurantes. Essa experiência mudou a minha visão sobre a gastronomia.

Voltei para o Brasil completamente imersa no conceito de ecogastronomia e no ano seguinte, em 2002, participei de um evento no Recife onde eu não conhecia metade dos ingredientes disponíveis para cozinhar. Dessa metade, quase tudo era derivado de mandioca! Quando voltei para o Rio, perguntei para a minha equipe de cozinha, quase todos nordestinos, se eles sabiam o que era uma Casa de Farinha. Todos sabiam! E também conheciam aqueles derivados da mandioca que, para mim, ainda eram uma novidade. Aprofundei a conversa e descobri que essa tradição gastronômica não estava sendo passada para as novas gerações, já nascidas no Rio de Janeiro. Aí tive o estalo de iniciar as oficinas de tapioca e várias ações com foco na educação do gosto e valorização de pequenos agricultores, culminando na criação do Instituto Maniva e do projeto Ecochefs.

2. O que é preciso para que o consumo de alimentos frescos, sazonais e sustentáveis torne-se mais acessível?
Para responder a essa pergunta eu vou até a raiz do problema, que está no campo. Falta assistência técnica rural qualificada e acessível para pequenos produtores. Faltam políticas públicas para que a agricultura familiar esteja mais qualificada para enfrentar problemas logísticos e de comercialização. Falta educação contextualizada que prepare o jovem rural para os desafios do campo. Se dermos respostas a questões como estas, certamente, os efeitos serão sentidos em toda a sociedade e, por fim, o acesso aos alimentos frescos não se restringirá somente à classe média ou a ações que fomentam a alimentação saudável.

3. Quais são os desafios de ser uma ecochef no Rio de Janeiro?
Os desafios são muitos, mas eu gostaria de destacar três: 1. o acesso ao produtor e ao produto, pois não temos uma logística que facilite esse canal de comercialização e troca; 2. convencer a sua equipe sobre a importância de valorizar o pequeno agricultor e mostrar a ela o impacto positivo que esta relação traz, tanto para nós quanto para os produtores e também para os clientes; e 3. sensibilizar os nossos amigos chefs que não estão muito atentos a esta temática. Muitos não entendem – ou não querem entender! – que as escolhas que eles fazem trazem benefícios diretos para toda uma cadeia produtiva, além de influenciar diretamente nos hábitos e escolhas dos consumidores. Falta uma visão mais política e sistêmica de todo esse ciclo.

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The Perennial Plate: aventuras ecogastronômicas

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Conheci o The Perennial Plate há quase um ano. O link do projeto ficou salvo nos meus favoritos, mas nunca consegui parar para assistir. Eis que saí de férias e resolvi dar uma olhada na lista de links “para ver depois” que só cresce, e me deparei novamente com o link.

The Perennial Plate é uma série online, de minidocumentários publicados semanalmente, dedicada à alimentação saudável, educação do gosto, ecogastronomia e temas afins. Confira um dos vídeos aqui:

Veja todos os vídeos aqui

O projeto foi criado pelo chef e ativista, Daniel Klein, e a cineasta, Mirra Fine. Desde então, a dupla viaja pelo mundo explorando as maravilhas, complexidades e histórias por trás do sistema alimentar global cada vez mais conectado.

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A primeira temporada ocorreu durante em Minnesota, nos EUA, onde todas as segundas-feiras, durante 52 semanas, a dupla lançou filmes curtos que seguiram as explorações culinárias, agrícolas e de caça de Daniel Klein.

Na segunda temporada, Klein e Fine viajaram por toda a América, levando o espectador a explorar, apreciar e entender de onde vem a boa comida e como apreciá-la. Na temporada atual, Klein e Fine estão rodando o mundo, visitando países como a China, Japão, Índia, Marrocos, Itália, Argentina e África do Sul, entre outros destinos, para contar as histórias de alimentos reais e as pessoas que o conseguem.

Confira algumas imagens:

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Comida é arte

 

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Fast food caveman (Banksy)

O movimento Comer pra quê? está lançando um projeto bem legal, que pretende mobilizar e dialogar com a juventude unindo dois elementos que todos nós amamos: arte e comida! O objetivo da iniciativa é provocar reflexões e ação política a respeito do que representa o comer hoje. Durante os meses de abril e maio será realizada uma série de oito Encontros Criativos gratuitos, em universidades públicas do Rio de Janeiro.

Fanzine, Estêncil e Cinema (filme-carta) serão as linguagens artísticas apresentadas nos encontros. A ideia é colaborar para que os jovens construam suas narrativas e seus processos comunicativos, estimulando uma abordagem ética, estética e politizada da alimentação contemporânea.

O primeiro encontro acontecerá no dia 18 de abril, das 14h às 18h, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). O artista convidado Marcio Lazaroni, designer formado pela PUC-Rio e fundador da Fazenda Faraó, irá ensinar a técnica do Estêncil.

No dia 19 de abril, das 14h às 18h, será a vez da artista Camila Olivia Melo, educomunicadora e doutoranda em Artes&Design na PUC-Rio, ensinar a técnica de produção dos zines, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Nos dias 24 e 25 de abril e 05 de maio, das 13h às 17h, a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) irá receber o cineasta Geraldo Pereira, que já trabalhou em produções como Babilônia 2000”, “Edifício Master” e na série “Cultura Ponto a Ponto”, para ensinar a produzir o filme-carta.

Cada sessão terá 20 vagas e as inscrições já estão abertas, por meio deste formulário online. Os participantes receberão certificado e as criações artísticas farão parte da mobilização do movimento “Comer pra quê?”.

3 Perguntas para Juliana Dias

Juliana Dias_Jornalismo Gastronômico_por Mariana Moraes

Conheci a Juliana Dias, há mais o menos um ano, quando fui seu aluno no curso de Jornalismo Gastronômico da FACHA, no Rio. De lá pra cá, passamos a trocar muitas figurinhas sobre temas afins e ela se tornou, para mim, uma espécie de guru conceitual. Além de ministrar o curso (que agora é também pós-graduação, com início em setembro), Juliana é sócia da Malagueta Comunicação, mestre em Educação em Saúde e Ciências (Nutes/UFRJ) e pesquisadora na área de comunicação, cultura e alimentação. Confira a nossa prosa!

1. Em que momento da sua trajetória você percebeu que essa história de comunicação e gastronomia dava caldo?
Quando escolhi fazer jornalismo, já tinha o interesse em escrever sobre comida. Não sabia como seria a junção dos dois assuntos, pois os espaços dedicados nos jornais abordavam apenas alguns aspectos do alimento, como culinária, saúde, bem-estar e ciência. Eu tinha a intuição de que falar sobre comida deveria ser mais abrangente. Atribuo essa percepção a minha infância, onde cresci com meu pai, o seu Pacheco, paraibano chegou no Rio com 18 anos, trazendo na mala “bastante saudade”. Por mais de 30 anos foi dono de um armazém com produtos do Nordeste, na Ilha do Governador; aos domingos preparava almoços com pratos de sua Terra, como sarapatel, buchada, dobradinha… além das idas à Feira de São Cristóvão e rodas de repente na sala de casa, regadas à comidas e bebidas típicas.

Enquanto ele matava as saudades do sertão com a comida, eu desde cedo gostei de cozinhar, preparar bolos, inicialmente, sempre com apoio da minha mãe. O interesse pelos sentidos do cozinhar, comer junto e compartilhar foi tomando meu pensamento com questões que me animavam. Comida tem história, afeto, cuidado, e o universo simbólico do comer me arrebatou. O tema de minha monografia foi a Feira de São Cristóvão e daí em diante persegui uma oportunidade para juntar as duas paixões. Foi no evento chamado Degusta Rio, em 2003, que conheci um mundo fascinante do qual não tinha tido acesso ainda. Em uma das barracas estavam Margarida Nogueira e Teresa Corção falando sobre mandioca, veja só, e da importância de valorizar as identidades brasileiras. As duas me apresentaram o movimento Slow Food, do qual faço parte até hoje. Outra pessoa que conheci nesse evento foi a Luiza Aquim, mãe da Samantha Aquim. Com doçura e paciência, ficou um bom tempo conversando comigo sobre comidas, restaurantes e todo o universo da gastronomia. Me encantei com as três. Quanta sinergia. A maneira como elas falavam sobre o alimento, era como eu imaginava que deveria ser, mas não tinha referências. Eu colei na Margarida e na Teresa. Aprendi muito e aprendo até hoje. Uma iniciação em grande estilo, com pessoas apaixonadas, sérias e comprometidas. Foi um presente.

Entre os autores que me marcaram nessa trajetória estão Rubem Alves, Brillat-Savarin, Michael Pollan e Eça de Queiróz. Em 2006, conheci Carolina Amorim, com que consegui colocar em prática o que vinha aprendendo e lendo. Montamos a Malagueta Comunicação e em 10 anos realizamos projetos lindos, com o propósito de falar sobre comida de forma complexa, carregada de significados culturais. Somos empreendedoras da internet e foi nesse espaço que lançamos o Informativo Malagueta, um boletim semanal que chegou a ter 22 mil assinantes. Era um prazer preparar esse conteúdo, falando da comida em diversos assuntos e editorias, buscando acompanhar os acontecimentos por essa lente. Hoje, não temos mais o informativo porque estamos nos dedicando a projetos pessoais e trabalhamos em conjunto com projetos da Malagueta, como a campanha Comida é Patrimônio, do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN). De 2003 até hoje, cada vez mais percebo a importância de relacionar comunicação e gastronomia, como uma estratégia de emancipação da população, que está cercada com discursos com interesses tão distintos sobre alimentação que perde a capacidade de contextualizar e englobar os saberes e práticas da atividade de alimentar-se. Há um pensamento reducionista que considera o conhecimento da comida apenas pelas partes: prevalece o nutriente ao invés do alimento; ou a mercadoria ao invés do direito. As sucessivas crises atuais demandam por novas maneiras de conhecer, comunicar e aprender, sendo o campo da alimentação um desafio para todos, por ser central tanto para a sobrevivência como para organizar simbolicamente a sociedade.

Juliana Dias_Curso Jornalismo Gastronômico_por Mariana Moraes

2. E como surgiu a ideia de um curso orientado ao profissional quem tem interesse por uma área tão específica do jornalismo?
O curso é fruto dessa vivência profissional, do engajamento e da experiência acadêmica. Senti a necessidade de fomentar o enfoque comunicacional com outros interlocutores que trabalham com gastronomia. Acredito que o campo da comunicação social precisa sentar à mesa para discutir alimentação, não pela sua instrumentalidade, mas pelo fato de a comunicação ser uma dimensão existencial e organizacional da sociedade. O curso começou em 2014 e, ao longo desses dois anos, tem sido um excelente campo de conhecimento, trocas e reflexões sobre como devemos aproximar o campo da comunicação com a gastronomia. Esse ano, vamos concretizar mais uma etapa. Em setembro a FACHA vai lançar a pós em Jornalismo Gastronômico, com um time de profissionais e pesquisadores que tem produzido conhecimento crítico sobre as relações entre alimentação, comunicação e cultura. A pós é inédita no Rio e nosso objetivo é apresentar uma abordagem complexa e dialógica entre comunicação e alimentação.

3. Quais são os principais desafios enfrentados pelo jornalista que se propõe a escrever sobre comida?
Entre os principais desafios, a meu ver, está a formação, pois é preciso estudar conteúdos de diferentes disciplinas para produzir novos modelos de comunicação. Quem está entrando agora no mercado tem chances de empreender, realizar projetos que ainda não foram feitos, mas demanda um pensamento crítico, para inovar em processos criativos nas áreas como publicidade, marketing, mercado editorial, produção de TV. É importante ter em conta que deve-se estudar muito mesmo, buscar dialogar saberes, disciplinas e práticas para construir um modelo de jornalismo gastronômico que siga o caminho da pluralidade, numa comunicação horizontal e em rede. Percebo que há um campo a ser explorado pela área de comunicação com os temas da Segurança Alimentar e da Agroecologia. Muitas iniciativas pioneiras estão emergindo e é necessário fortalecê-las, sistematizá-las e consolidá-las. Vejo muitas oportunidades, mas é preciso colocar a mão no arado, fazer articulações e se juntar às redes e movimentos sociais para provocar mudanças. Na minha visão, produzir conteúdo e conhecimento sobre comunicação e gastronomia é uma maneira de gerar novas perspectivas para enfrentar a crise ambiental, a crise da mídia e tantas outras que se somam. É um campo fértil para empreender, engajar, compreender melhor o mundo e transformar realidades.

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+ Imagens: divulgação.

Bananal Food Lab

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O Rio de Janeiro vive um momento de ebulição criativa e não há crise que impeça essa nova turma empreendedora de criar e prosperar em novos negócios e em diferentes áreas, como mobilidade, design, moda, comunicação… e também comida! E é nesta frente que o Bananal Food Lab surge, como um projeto que está estimulando e encorajando a reflexão das pessoas sobre a cultura alimentar brasileira e a educação do gosto.

O Bananal intitula-se como um “estúdio criativo” e é formado por jovens que têm o comum objetivo de fazer uma ponte entre novos comensais e comida de alta qualidade, através de experiências gastronômicas “multissensoriais”. Parece pretensioso, né? Mas para levar a cabo a sua missão, o coletivo promove eventos muito bacanas, com a proposta de instigar o paladar e mudar a visão que temos acerca das nossas escolhas e hábitos alimentares.

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Criado há pouco mais de um ano por Sara Macedo, o empreendimento surgiu da ideia de valorizar a gastronomia brasileira. “O Brasil é gigante e tem muito a se conhecer em termos de ingredientes. Inicialmente, o projeto foi concebido para ser um laboratório de pesquisa, mas ao ver que o que já existe é pouco valorizado, decidimos dar um passo atrás”, explica Sara, que é portuguesa e tem mestrado em Comunicação e Cultura Alimentar pela Universidade de Ciências Gastronômicas, na Itália.

+ (Leia também a entrevista com Sara Macedo)

Atualmente, o Bananal Food Lab organiza dois encontros distintos. Os jantares secretos consistem em reuniões para até 15 participantes que não se conhecem, não sabem o cardápio e nem o local do encontro, até a realização em si. A cada edição, um chef é convidado e desafiado a desenvolver pratos de acordo com um ingrediente escolhido, como bananas, raízes e pimentas.

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A segunda experiência são os pop-ups, eventos abertos ao público onde, da mesma forma, um ingrediente é eleito e três grupos formados por jovens chefs são desafiados a criar novos pratos, gerando um clima de competição fair-play, bem na camaradagem. Cada edição é batizada com nomes inusitados, como “Peixaria” e “Melanzaneria”, sempre em homenagem à grande estrela da noite.

“Estes encontros têm como objetivo serem espaços de livre criação, dando aos chefs-participantes a licença poética para criar o que quiserem – algo que não é muito incentivado nas cozinhas do Rio de Janeiro – e também de dar a provar a quem vem jantar pratos locais ou ligados à cultura brasileira, preparados de maneiras inusitadas”, destaca Sara.

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As edições anteriores dos pop-ups foram realizadas em espaços como a Pequena Central e Comuna. Para participar das próximas, basta ficar de olho nos canais do Bananal Food Lab no Instagram e Facebook. Já para os jantares secretos, o esquema complica um pouco. Os felizardos precisam estar na rede de contatos da equipe/amigos do projeto e, mesmo assim, devem cruzar os dedos para serem selecionados. “Há segredos que não posso revelar, mas dou uma pista: quem me conhecer pessoalmente, por aí, já está a meio caminho para ser convidado para um dos jantares”, sentencia Sara.

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+ As imagens do post são da Luiza Chataignier.