Não desperdice alimentos!

 

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Crédito da imagem: Instituto Feira Livre

O que vem em mente quando você lê alguma coisa sobre mudanças climáticas? Acha que o problema está distante de você e só diz respeito à indústria? Já parou para pensar que muito desse papo tem a ver com comida e sobre todo o caminho que o alimento faz para chegar até a ponta do seu garfo? Pode parecer difícil de mensurar, mas dá pra imaginar o quanto de desperdício tem nesse percurso, né?

Qual é o impacto de uma sacola com restos da salada que vai para o lixo frente a outros elementos que contribuem para o aumento dos gases de efeito estufa, como a queima de combustíveis fósseis? Pode parecer pouco, mas nós – eu, você e um monte de gente – estamos desperdiçando muito, em escala global!

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Crédito da imagem: Instituto Chão

Como definifo pelo The Climate Lab, o desperdício de comida é, realmente, “o problema mais idiota do mundo”. Mais de um terço de todos os alimentos produzidos globalmente é desperdiçado ou estragado e, lamentavelmente, uma em cada nove pessoas sofre de desnutrição crônica neste planeta.

Segundo dados da FAO, a quantidade de terra dedicada à produção de alimentos desperdiçados seria o segundo maior país do mundo! A questão é: como toda essa terra pode ser usada para produzir alimentos que nunca chegam ao seu destino final?

A boa notícia é que reduzir o desperdício de alimentos é relativamente fácil em nível individual e aqui estão algumas maneiras fáceis de começar:

1. Seja realista sobre a quantidade de alimentos que você consome. Planeje as suas compras e compre o necessário. Vale a regra de ouro: nunca vá ao mercado com fome! Outra dica: faça compras pequenas e frequentes.

2. Não exagere na hora de cozinhar, mas se a receita der para um batalhão, use a criatividade para aproveitar as sobras no famoso SOS (sobras de ontem sortidas). A Rita Lobo pode te ajudar com várias dicas de como remixar o almoço de ontem….

3. Aprenda como armazenar os alimentos corretamente. Soa óbvio? Certifique-se de que você sabe quais frutas e vegetais devem ser armazenados à temperatura ambiente, e que você pode colocar na geladeira ou freezer para que eles durem mais.

4. Reduza o uso de embalagens comprando a granel ou escolhendo produtos soltos. Vai comprar frutas e legumes? Evite o saquinho plástico e coloque-os direto no carrinho. Depois de pesá-los, eles podem ir direto para a sacola de compras, por exemplo…

5. Compostagem: se você quiser ir além, a compostagem transforma restos de comida em ricos nutrientes para a sua horta ou jardim, e mantém os resíduos orgânicos fora dos aterros sanitários. Veja como fazer nessas dicas do site Sempre Família.

6. E por fim, descubra se no seu bairro ou cidade existem programas de doações de alimentos, como o Sesc Mesa Brasil.

 

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Como a Grande Indústria Viciou o Brasil em Junk Food [NY Times]

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E essa matéria do The New York Times, hein? Foi preciso um jornal gringo, com o olhar de fora, destacar e, praticamente, desenhar para nós, brasileiros, o que anda acontecendo com a alimentação do lado de cá da linha do Equador.

Completíssima, com direito a vídeo, fotos, pesquisas, infográficos e muitos personagens, a reportagem publicada na semana passada caiu como bomba nas nossas cabeças e também na da indústria alimentar, com destaque luxuoso para a Nestlé.

A matéria, em linhas gerais, e de forma bastante contundente,  mostra a ligação do avanço no consumo de ultraprocessados no país com o aumento estrondoso dos casos de obesidade e doenças relacionadas à má alimentação.

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Em 10 anos, as vendas desses produtos aumentaram mais do dobro e chegaram aos rincões mais remotos do Brasil, como o interior do Amazonas e as periferias das grandes cidades do Nordeste. Nos últimos anos, tem-se verificado o aumento de um milhão de novos casos de obesidade!

“Na epidemiologia, nós vemos o vetor de uma doença. Por exemplo, os mosquitos são o vetor da malária. O vetor da obesidade são os alimentos ultraprocessados”, afirma Carlos Monteiro, professor de Saúde Pública da USP, no vídeo que acompanha o texto.

Críticos ouvidos na matéria defendem que esse fenômeno é alimentado pelo marketing agressivo e o sucesso dessas grandes corporações  está totalmente ligado a destruição de uma dieta rica e diversificada.

A matéria vai além, e aborda o lobby do setor para embarreirar a regulamentação da Anvisa, cita movimentações políticas que facilitam a morosidade da pauta e também ouve representantes da indústria.

Por exemplo, Sean Westcott, chefe de pesquisa e desenvolvimento de alimentos da Nestlé, admite que a obesidade foi um efeito colateral inesperado surgido depois que alimentos processados de baixo custo se tornaram mais acessíveis. “Não sabíamos qual seria o impacto”, diz.

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Confira a matéria do The New York Times na íntegra. Vale à pena! Leia tudo com atenção, reflita e pense sobre este tema. A informação e o conhecimento são ferramentas poderosas para não nos tornarmos vítimas dessa triste estatística e, mais, para defender , valorizar e salvaguardar a diversidade e qualidade da dieta brasileira.

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Imagens: William Daniels for The New York Times
Mapa: Audrey Carlsen.  Fonte: Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde.

 

Você sabe o que é comida de verdade?

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Carne recheada com batata rústica – isso é comida de verdade (crédito da imagem)

O sistema alimentar está mudando diante dos nossos olhos. Se você, caro leitor, estiver na casa dos 30 anos ou mais, certamente lembrará que até há alguns anos, as empresas tinham liberdade total para criar o que desse na telha. Os ingredientes só tinham valor como item de custo, ou seja, quanto mais barato, melhor. As embalagens sequer informavam os “ingredientes” ou a famigerada “tabela nutricional”.

De lá para cá, o cenário vem mudando gradativamente… via pressão popular, regulamentação, guerras comerciais… enfim, fato da vida é que, hoje, já vemos muitas empresas mudando de estratégia, retirando ingredientes que não sabemos pronunciar e enaltecendo a (pouca) quantidade de elementos utilizados. Será que essas “coisas” estão se tornando comida de de verdade? As mudanças são só mais uma jogada de marketing de olho nas tendências? Os alimentos industrializados estão mais “saudáveis”? Mas, afinal, o que é comida de verdade?

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O que tem nessa manteiga? (crédito da imagem)

Creio que comida de verdade sejam aqueles alimentos que conseguimos reconhecer como comida, que conseguimos entender do que são feitos, a exemplo da manteiga = gordura do leite batida com sal

E muito diferente da margarina = gorduras vegetais hidrogenadas, sebo animal, ácido sulfúrico, leite de vaca, soda cáustica, ácido benzoico, ácido butil hidroxitolueno (explosivo), galato propila, corante artificial (CI, CII, etc.), aromatizantes artificiais (PI, PIV), antioxidantes artificiais (AV, AVI e AVIII), estabilizantes artificiais, vitamina “A” sintética ou acetato de vitamina A2,20.COC Co).

Quando nos deparamos com milhares de ingredientes que não entendemos, como podemos confiar neles? Quer outro exemplo? Veja alguns elementos estranhos que encontramos em um inofensivo biscoito recheado: emulsificante lecitina de soja, ésteres de mono e diglicerídeos de ácidos graxos com ácido diacetil tartárico, bicardonato de amônio… gente, o que são essas coisas? Era para ser apenas um biscoito… farinha, açúcar, manteiga…

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Tem uma tabela periódica inteira dentro desse biscoito (crédito da imagem)

O desejo pela comida de verdade surge quando falta transparência por parte da indústria alimentar. No passado, a informação não era tão acessível, mas atualmente, em poucos segundos, eu consigo, por exemplo, ter acesso à infinita lista de ingredientes do biscoito ou da margarina, citados anteriormente. Ao assistir um vídeo no YouTube, por exemplo, eu consigo entender por que as florestas na Ásia estão sendo desmatadas para se plantar palma e extrair óleo para fazer chocolate…

Hoje, tem-se acesso a um mundo de informações que nos fazem pensar e refletir sobre as nossas escolhas: imagine se no tempo dos seus avós discutia-se sobre agrotóxicos, transgênicos, desmatamento, alimentos com excesso de sal, açúcar e gordura… e como isso se materializa nas nossas escolhas e na comida que chega ao nosso prato.

Isso é um fato: as pessoas têm se preocupado mais com o que comem. Ainda não é uma tomada de consciência absurda, existe muita confusão e informações dúbias, mas há uma mudança em curso. Elas estão se preocupando mais, procurando entender o que é ou não comida de verdade. A máxima do Michael Pollan no livro “Regras da Comida”, para nos ajudar nas nossas escolhas, é demais:

“Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida”

Quando você prepara o seu próprio alimento, você está fazendo comida de de verdade – com poucos ingredientes é possível fazer coisas maravilhosas. Quando você privilegia os pequenos produtores você está apoiando a comida de verdade. Quando você opta por alimentos da sua região, você está investindo na comida de verdade.

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Você sabe quem planta o seu alimento? (crédito da imagem)

Futuro do planeta
A segurança alimentar é um tema-chave para a sustentabilidade do nosso planeta. Segundo dados da ONU, a agropecuária é responsável por 22% das emissões de gases de efeito estufa no mundo. No Brasil, essa proporção sobe para 60%!

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Fronteira agrícola avançando sobre a mata (crédito da imagem)

Estima-se que até 2022 o nosso país necessitará expandir sua área agrícola em cerca de 7 milhões de hectares e produzir 30% mais carne bovina para suprir demandas por alimentos no mundo, segundo o Ministério Agricultura. E aí faz como? Termina de desmatar a floresta amazônica? Trata-se de um modelo agroindustrial que simplesmente não faz o menor sentido.

Quer número pior? A comida desperdiçada no mundo, cerca de 1,3 bilhões de toneladas, responde por mais emissões de gases causadores de efeito estufa do que qualquer país, exceto China e Estados Unidos.  Se não houvesse tanto prejuízo com o desperdício de alimentos, o problema da fome no mundo poderia ser facilmente resolvido sem a necessidade de se derrubar mais uma árvore para isso.

E aí, quando passamos a nos preocupar com a comida de verdade, essas reflexões passam a vir à tona e começamos a pensar em questões como “preciso mesmo comer carne vermelha todo santo dia?”. Como bem ensina a Kapim, em seu divertido programa Socorro! Meu Filho Come Mal!, mais do que doses diárias de carne, nossos pratos precisam ser coloridos, variados!

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Cozinhe! (crédito da imagem)

Já falei sobre isso em outro post e volto aqui, ao final deste artigo, para reforçar a mensagem: vamos cozinhar mais em casa! Quanto mais se cozinha, mais se aprende sobre o que está acontecendo com o seu corpo, com o meio em que você vive e sobre as pessoas que você ama e estão ao seu redor. Cozinhar é um ato político, cozinhar é uma declaração de amor! Comida é liberdade! Precisamos cozinhar mais comida de verdade

3 pilares do próximo sistema alimentar

Há alguns dias, tive acesso a um interessante artigo, compartilhado pelo amigo Eddie Boorhem, sobre o futuro do nosso sistema alimentar. Escrito por Micki Seibel, do Sustainable Food Systems, o texto sugere que estamos no limiar de uma nova revolução alimentar, baseada em biodiversidade, novas culturas alimentares e tecnologia. Tomei a liberdade de traduzi-lo para compartilhar aqui no Caipirismo. Confira!

+ Leia o artigo original aqui

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Ao longo da história, nós transformamos o nosso sistema alimentar em várias ocasiões notáveis. A capacidade de domesticar plantas e animais, por exemplo, provocou a primeira transformação: o aumento da agricultura. Já o sistema alimentar que conhecemos hoje é resultado da “revolução verde”, iniciada em meados do século XX.

A “revolução verde” resolveu o problema da quantidade: como podemos aumentar a quantidade de calorias para alimentar uma população em franco crescimento? Os principais pilares desta revolução foram: 1) inovações na química que geraram fertilizantes artificiais, herbicidas e pesticidas; 2) desenvolvimento de culturas de grãos de alto rendimento; e 3) infra-estrutura de água controlada (por exemplo, irrigação). Como resultado, nós aumentamos a quantidade de alimentos que produzimos conforme o aumento massivo das colheitas.

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Infelizmente, como acontece na maioria das situações, há consequências não intencionais neste processo: fizemos um sistema alimentar que produz o alimento errado, com grandes danos ao meio ambiente.

É por isso que estamos no início da próxima transformação em nosso sistema alimentar. Desta vez, preservando a nossa capacidade de produzir em quantidade e melhorando questão da sustentabilidade. Os três pilares do nosso próximo sistema alimentar são: 1) biodiversidade, 2) novas culturas alimentares e 3) digitalização.

Biodiversidade: imitando a natureza; sem controle
Com o sistema de alimentos industriais de hoje, milhões e milhões de hectares de terra são dedicados ao cultivo de uma única cultura e um grande esforço e muitos produtos químicos são utilizados para afastar todo o resto de vida daquele ambiente. Com o passar do tempo, as monoculturas degradam o solo e deixam as ervas daninhas e pragas mais resistentes aos agrotóxicos.

Por outro lado, ecossistemas prósperos e saudáveis na natureza contêm verdadeiras massas de biodiversidade. Desde a floresta mais profunda, passando pelo fundo do oceano até o topo da montanha mais alta, os ecossistemas naturais abrigam centenas ou milhares de espécies de plantas, animais e micróbios, todos interligados.

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Nosso próximo sistema alimentar vai imitar a natureza através do cultivo de alimentos em um ecossistema que incorpora plantas, animais, fungos, micróbios e novos participantes a serem descobertos. Hoje, o solo que  abriga as uvas da sua taça de pinot noir só produzem frutos para o vinho. Neste novo sistema alimentar, esta mesma terra produzirá também os grãos para o pão, o leite para o queijo, a lã para o suéter e o cordeiro para a janta. O rancho que produz carne bovina também terá galinhas e suínos e cultivará nabos, couve e beterraba, porque os porcos comem isso também. Nada será desperdiçado.

Algumas variedades atuais também serão cultivadas em ambientes fechados. Esta forma de agricultura é mais parecida com uma fábrica do que com uma fazenda: altamente automatizada e orientada a dados. Por que 90% das folhas verdes produzidas nos EUA devem ser cultivadas somente na Califórnia quando 75% da população norte-americana vive ao leste das Montanhas Rochosas? Produtos altamente perecíveis, como verduras, morangos, brócolis… viajam, em média, mais de 3.200 km desde a fazenda até o garfo.

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Realizar a colheita em instalações hidropônicas perto de grandes centros populacionais significa que você pode propiciar mais nutrientes em produtos mais frescos, reduzir em 90% o consumo de água, ter colheitas diárias durante todo o ano e gerar menos resíduos alimentares. Isto se aplica ao peixe fresco e frutos do mar, porque há uma simbiose com os resíduos do processamento de frutos do mar e os nutrientes necessários para a produção dos mesmos. É uma outra forma de ecossistema diversificado.

Novas culturas de alimentos em novas embalagens
Os principais cereais que alimentam o mundo (e o gado) – milho, trigo, arroz, soja, etc – são plantas sazonais. Semeaduras, florescimento, colheita… sazonais. Como os seres humanos neolíticos domesticaram as plantas há 10.000 anos, era mais fácil e mais rápido repetir o processo por reprodução seletiva sazonal. Alimentos perenes, por outro lado, não tiveram esse tipo de avanço, porque são duradouros. Nós optamos por alimentos sazonais porque são mais rápidos, mesmo considerando que as plantas perenes podem ser melhores: sistemas profundamente enraizados que reduzem a erosão do solo e sequestram o carbono da atmosfera. Os avanços na genética e, em particular, a capacidade de editar sequências genômicas em software – o equivalente digital de reprodução seletiva – permitem a replicação de variedades perenes mais rapidamente. Isso representa campos que retêm mais água, mais solo e mais adubo, facilitando o cultivo de grãos em terras marginais. Gramíneas perenes também formam a base de um ecossistema diversificado para os animais pastarem, além de formar todo um microbioma próspero.

Novos alimentos serão “descobertos” nos resíduos produzidos pelo nosso sistema atual. Como o desperdício é um tema cada vez mais importante para a segurança alimentar, estes resíduos podem se transformar em novos subprodutos. Você já se perguntou o que acontece com toneladas de fibra de soja depois que se extrai o líquido que vira leite de soja ou tofu? E o soro de leite que é separado no processo de fabricação do queijo? O que acontece com as cascas dos bilhões de camarões consumidos todos os anos nos Estados Unidos? Tudo isso é pode ser aproveitado não só na alimentação de animais, mas também na de seres humanos.

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Para atender as necessidades nutricionais de uma população em crescimento, vamos explorar a última fronteira das proteínas: os insetos. Eles se reproduzem rapidamente e exigem uma espaço de terra muito pequeno para serem criados. Neste novo sistema alimentar, veremos os insetos entrarem no nosso abastecimento alimentar, primeiro na nutrição animal e, ao longo do tempo, como produtos alimentares humanos.

As embalagens serão feitas a partir de novas substâncias, oriundas de outros alimentos. Isto permite que estes produtos sejam biodegradáveis. Elas não se acumularão e entoxicarão os oceanos como acontece hoje com o plástico. Do “couro” derivado de cogumelos ao “plástico” sintetizado a partir de conchas de camarão, estas novas embalagens vão das cinzas às cinzas, do pó ao pó, como matéria orgânica de volta em nossos solos e oceanos.

Sendo biológicas, estas embalagens poderão mudar de cor para indicar que o produto passou da validade. O macarrão fusilli poderá transformar-se de uma folha lisa ao formato espiral característico somente quando estiver perfeitamente al dente. Dados de espectroscopia genômica e química serão tão baratos e difundidos que sua comida lhe dirá quais nutrientes estão contidos nele. Você não precisará mais das informações dos rótulos.

Digitalização
Atualmente, o alimento é a cadeia de suprimento menos digitalizada de qualquer setor. A recente proliferação de aparelhos inteligentes como telefones celulares, dispositivos portáteis, tablets e sensores baratos e sofisticados, além de avanços em robótica, possibilitam a coleta e análise de dados independentes, à medida que os alimentos são cultivados no campo e viajam pelo sistema alimentar até o nosso garfo. As decisões sobre a fazenda não serão mais tomadas por meio de observações humanas e técnicas de tentativa e erro. As decisões sobre como cultivar alimentos e o quanto colher serão baseadas na medição e análise de ecossistemas de biodiversidade com coleta de dados digitais, big data e análises sofisticadas.

Os dados digitais armazenados “na nuvem” e facilmente acessíveis e compartilháveis ao longo da cadeia de abastecimento, propiciam um fornecimento de alimentos mais transparente e com muito menos desperdício. Não será mais necessário produzir em grande escala para depois empurrar tudo para o início da cadeia de abastecimento – desperdiçando metade dele ao longo do caminho. Em vez disso, faremos previsões sofisticadas para produzir exatamente o que é necessário, quando for necessário. Vamos desperdiçar menos.

Toda transformação em nosso sistema alimentar – desde o surgimento da agricultura até a industrialização – resolveu um problema de um sistema anterior. A próxima transformação está em nossas mãos: ecossistemas diversificados, novas culturas alimentares e o poder da computação moderna formam estes pilares. São muitos os motivos para estarmos otimistas. Diariamente, vejo empresas (grandes e pequenas), organizações governamentais e organizações sem fins lucrativos que estão inovando e colaborando para criar este novo sistema. Os três pilares que apresentei são tecnologias e inovações que se fundamentam no presente. Eles existem agora! Precisamos apenas usá-los, implantá-los e cultivá-los. É um momento emocionante para trabalhar no sistema alimentar.

Eu me pergunto, porém, quais serão as conseqüências não intencionais?

 

 

15 fazendas urbanas mundo afora

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crédito da foto

Cerca de 15% dos alimentos produzidos no mundo, hoje, são cultivados em áreas urbanas e periurbanas. Segundo a FAO, estas fazendas e hortas já atendem a uma demanda de 700 milhões de pessoas, mais ou menos um quarto da população urbana mundial.

Nas pesquisas que faço por aí, eu fico impressionado com o esforço de centenas de iniciativas, desde hortas urbanas até verdadeiras fazendas, em sua maioria cultivando alimentos e criando animais segundo os princípios da agroecologia, promovendo a utilização saudável de ambientes antes degradados e unindo comunidades.

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crédito da foto

A agricultura urbana não contribui somente com a segurança alimentar, mas também com a aproximação da natureza, da cultura do gosto e da edução ambiental. Se você se interessa pelo tema, pensa visitar uma fazenda urbana em sua próxima viagem e quer conhecer algumas experiências de sucesso, vem comigo e confira estes 15 projetos inspiradores, espalhados mundo afora!

 

1. Canberra City Farms (Canberra, Austrália)
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O Canberra City Farms, na capital australiana, se dedica a formar pequenos centros de aprendizado onde as pessoas podem colaborar e dividir seus conhecimentos sobre a produção de alimentos sustentáveis e ambientalmente responsáveis.

2. Ferme de Paris (Paris, França)
A Ferme de Paris é uma fazenda educativa e ambiental, localizada perto perto do Hipódromo de Vincennes. É uma estrutura municipal de ensino bastante diversificada, com produção de legumes, verduras, ervas medicinais e até criação de animais.

3. Fresh & Local (Bombain, Índia)
É através da agricultura urbana que o Fresh & Local busca melhorar a saúde e a qualidade de vida dos moradores de Bombaim. A organização ocupa espaços vazios ou abandonados e os transforma em incríveis centros comunitários, com muito verde e alimentos frescos.

4. Frisch vom Dach (Berlim, Alemanha)
Trata-se de um projeto de hidroponia que começou no telhado de uma antiga fábrica de malte, em Berlin. O projeto Frisch vom Dach utiliza nutrientes da aquicultura para irrigar legumes e verduras.

5. Brooklyn Grange (Nova Iorque, EUA)
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O Brooklyn Grange é um projeto pioneiro em Nova Iorque. Hoje, ele ocupa três grandes telhados, dois no Brooklyn e um em Long Island City, que são verdadeiras fazendas orgânicas, altamente produtivas. O grupo também promove cursos, eventos e consultorias mundo afora.

6. Huerto Tlatelolco (Cidade do México, México)
Trata-se de uma verdadeira floresta comestível em plena Cidade do México, com cerca de 45 variedades de árvores, banco de sementes e uma grande horta. Este é o projeto Huerto Tlatelolco,  criado com o objetivo de fomentar a alimentação saudável o convívio da comunidade local.

7. Mazingira Institute (Nairóbi, Quênia)
O Instituto Mazingira fornece treinamento e suporte para agricultores urbanos que vivem em Nairóbi. A ONG já capacitou cerca de três mil agricultores urbanos, além de ter formado grupos de jovens e mulheres.

8. Pasona O2 (Tóquio, Japão)
O Pasona O2 é um projeto de fazendas urbanas, de Tóquio, que promove o cultivo de mais de 100 variedades de legumes e verduras, em espaços fechados, como subsolos, e em paredes de edifícios comerciais.

9. The People’s Potato (Montreal, Canadá)
Localizado em Montreal, the People’s Potato, é um projeto de horta e estufa de mudas geridos pelos moradores da região onde ele foi instalado. Uma rede de voluntários cultiva produtos orgânicos e distribui na vizinhança, além de preparar refeições veganas a partir de um banco de alimentos.

10. Hortas Cariocas (Rio de Janeiro, Brasil)
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O Hortas Cariocas, é um projeto da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, presente em 30 comunidades, e na Rede Municipal de Ensino do Rio. Elas geram empregos diretos e a produção é dividida entre escolas e famílias em risco social. O restante é comercializado e o lucro é dividido entre os parceiros ou reinvestido no projeto.

11. ReVision Urban Farm (Boston, EUA)
ReVision Urban Farm é um projeto de agricultura urbana de base comunitária que cultiva alimentos nutritivos para pessoas que vivem em alguns bairros da cidade de Boston. O projeto também ensina os moradores sobre alimentação saudável e oferece estágios para jovens e moradores de rua.

12. Camino Verde  (Puerto Maldonado, Peru)
Localizado em Puerto Maldonado, a missão do projeto Camino Verde é plantar árvores e incentivar a gestão ambiental, através de programas educacionais e de conscientização. O programa “Banco Vivo de Semillas”, por exemplo, funciona como um jardim botânico, com mais de 250 espécies de árvores, muitas ameaçadas es extinção.

13. Abalimi (Cidade do Cabo, África do Sul)
Abalimi é uma organização que trabalha em prol da conservação do meio ambiente e da agricultura urbana nos arredores da Cidade do Cabo. A instituição apóia e auxilia grupos e indivíduos que procuram melhorar a sua subsistência através da agricultura orgânica.

14. Sky Greens (Singapura)
Sky Greens é uma iniciativa pioneira, de baixo carbono, que consiste em uma fazenda urbana vertical que emprega soluções verdes e tecnológicas em suas práticas, para produzir legumes e verduras utilizando o mínimo de recursos possível.

15. Horta do CCSP (São Paulo, Brasil)
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Idealizada em 2011, a Horta do Centro Cultural de São Paulo, inicialmente foi formada a partir de mudas e materiais cedidos pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Hoje, a área é mantida por voluntários. Os mutirões acontecem no último domingo de cada mês.

O que é que essa marca tem?

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Você sabia que apenas dez multinacionais controlam todas as grandes marcas de produtos alimentícios do mundo? Pois bem, a ONG Oxfam realizou um estudo identificando-as e, desde 2013, trabalha em uma campanha que avalia e faz pressão para que gigantes da alimentação se empenhem em melhorar as práticas em toda a cadeia produtiva de seus negócios.

Batizada de Por Trás das Marcas, a iniciativa é parte do projeto “Cresça”, também capitaneado pela Oxfam, que busca contribuir com o fim da fome no mundo – ironicamente, a maior parte das pessoas que passam fome, hoje, é composta por agricultores que trabalham para produzir commodities, mas não tem acesso à alimentação de qualidade para eles e suas famílias.

Pelo portal da campanha, é possível consultar as principais marcas globais de grandes empresas, como a Nestlé, General Mills e Unilever, e ter acesso a avaliação de um ranking que segue critérios, como transparência, relacionamento com produtores e cuidado com o meio ambiente. Confira a lista completa aqui.

“Por Trás das Marcas” defende que a indústria alimentar tem uma enorme influência nessa cadeia perversa e acredita que as políticas dessas empresas podem determinar como os alimentos são produzidos, como os recursos naturais são explorados e em que medida os benefícios do negócio chegam até os milhões de parceiros envolvidos.

O site da iniciativa é atualizado periodicamente e traz novas avaliações e o sobe e desce das empresas no ranking, bem como mudanças positivas adotadas pelas mesmas. A ferramenta funciona como uma fonte de consulta, informação e instrumento de protesto, para pressionar a adoção de práticas que propiciem, de fato, uma mudança de cenário no que diz respeito a segurança alimentar do planeta.

Tal iniciativa é válida e pode gerar resultados positivos (confira os efeitos da campanha), tanto para consumidores quanto para a indústria, mas eu, particularmente, ainda prefiro repensar o sistema alimentar, com ênfase na construção de uma relação mais próxima entre quem faz e quem come. Visite o ranking e perceba que quase tudo o que você consome no supermercado é fabricado, basicamente, por 10 empresas… e ainda temos a incrível sensação de variedade e poder de escolha.

O que vamos comer amanhã?

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Crédito da foto

Neste sábado, o Museu do Amanhã vai abrigar um encontro que, em princípio, não imaginaríamos acontecendo em um museu, mas como estamos falando sobre o Amanhã, por que não falar sobre o futuro da nossa alimentação naquele espaço maravilhoso?

Celebrando o Dia Mundial da Alimentação (16/10), a grande bromélia (eu enxergo uma baleia) vai receber O que vamos comer amanhã?, um ciclo de palestras, feira gastronômica e oficinas, que tem como objetivo refletir sobre o impacto das escolhas alimentares não só na nossa saúde, mas também em relação ao futuro do planeta.

Serão 13 palestrantes (confira a seleção) e mais de 40 expositores, incluindo refugiados apoiados pelo Cáritas, e projetos como o Sabores do Porto e Maré de Sabores. Para participar, os interessados devem fazer inscrição no site do Museu do Amanhã. O seminário será transmitido ao vivo, a partir das 14h30 aqui.

O vamos comer amanhã? é uma iniciativa do Museu do Amanhã e da rede Comida do Amanhã, em parceria com a WWF, Conservação Internacional, Rio Alimentação Sustentável e Clube Orgânico.